O Brasil e seus Idos de Março

O gigantesco protesto de 15 de março na Avenida Paulista. (Fonte: Folha Política)

O gigantesco protesto de 15 de março na Avenida Paulista. (Fonte: Folha Política)

Os protestos do dia 15 de março foram uma das maiores manifestações populares contra o governo brasileiro da nossa história recente. Somente na Avenida Paulista, na capital paulistana, mais de um milhão de pessoas saíram às ruas para protestar contra o governo. Mais de uma centena de cidades ao redor do Brasil foi palco de manifestações contra o governo Dilma e o Partido dos Trabalhadores, e não me surpreenderia se o total de pessoas nas ruas ultrapassasse dois milhões.

No começo, o governo petista, por meio de seus ministros de plantão, utilizou o discurso fácil do “respeitamos as manifestações, mas”. Tentaram esvaziar o conteúdo político dos protestos. Disseram que não havia foco. A cobertura dos veículos tradicionais de comunicação, em maior ou menor medida, mostrou que queria emplacar essa tese. Mas simplesmente não foi possível: para todo lado que se olhava, fosse em fotos ou em gravações de vídeo, abundavam as faixas e cartazes com os dizeres “Fora Dilma” e “Fora PT”. O foco estava aí, para qualquer um ver. E todos viram.

No início da noite, os ministros Miguel Rossetto e José Eduardo Cardozo fizeram uma coletiva de imprensa para colocar panos quentes. Apesar da aparente tranquilidade – aquela calma que só o desespero dá –, era visível o abatimento e, por que não?, o estarrecimento dos ministros. A linha de conversa foi outra: é preciso diálogo, trabalhar com a oposição, etc. e tal. O cúmulo do absurdo foi afirmarem, com a desfaçatez típica daqueles que governam o País há mais de 12 anos, que o clamor das ruas casava com a proposta de reforma política que o governo quer promover. Os panelaços ao redor do Brasil durante a transmissão da coletiva de imprensa são um desmentido eloquente.

É preciso, entretanto, deixar a excitação superficial de lado, respirar fundo e ponderar, com tranquilidade, os desdobramentos do grandioso ato cívico que se deu no dia de hoje. Talvez não seja possível de imediato avaliar, com mínimo grau de certeza, o que será obtido com essas mobilizações. No entanto, podemos tirar duas lições simples e bem importantes do dia de hoje que, uma vez consideradas, certamente ajudarão nos combates que estão por vir.

A primeira lição é a de que os movimentos políticos de cunho socialista perderam o monopólio das ruas. Isso pôde ser visto de maneira muito patente no dia 13 de março, sexta-feira: apesar de todo o esforço financeiro em organizar uma militância de aluguel, conforme centenas de flagrantes deixaram bastante claro, as manifestações convocadas pelo PT e suas organizações-satélite – CUT, UNE, MST, dentre outros – foram um estrondoso fracasso. O discurso socialista está desgastado, e também o estão as organizações que tão zelosamente o sustentam ainda hoje.

A segunda lição é a de que esse movimento todo não pode parar. Assumir que os protestos de hoje foram uma vitória definitiva seria um erro crasso. Ao contrário: os protestos de hoje são o começo de algo maior que deve ser aprimorado. Fazendo uma analogia imperfeita, é como se os protestos de hoje fossem a reação de um corpo que age irracionalmente sob o efeito da adrenalina para combater o perigo que o ameaça. Essa descarga repentina é bastante útil, claro, mas não é suficiente: para ver-se livre do perigo, é preciso agir organizada e racionalmente, identificando exatamente quais são as causas da ameaça e como destruí-las definitivamente.

Hoje, dia 15 de março, o Brasil viu em suas ruas a ilustração daquilo que disse, de maneira tão eloquente, o escritor Georges Bernanos:

Ser reacionário é ser vivo, porque só um cadáver não reage aos vermes que o corroem.

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Em tempo: para quem não conhece, os Idos eram uma comemoração que acontecia no meio de todos os meses na época de Roma antiga. Foi nos Idos de Março do ano 44 a.C., exatamente no dia 15, que o ditador Caio Júlio César foi assassinado na escadaria do Senado romano.

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