Black Sabbath: Deus está morto?

Capa do single "God Is Dead?", da banda inglesa Black Sabbath

Capa do single “God Is Dead?”, da banda inglesa Black Sabbath

Não é exatamente uma novidade que a produção artística – música, artes plásticas, artes cênicas, cinema, literatura, etc. – dos nossos dias pode ser comparada, no geral, a uma imensa montanha de lixo. Qualquer pessoa com um senso estético mais ou menos educado, e um bocadinho de sensibilidade artística, sente-se, ao transitar pelo mundo das artes de hoje, como se estivesse no meio de um lixão.

Isso não significa, entretanto, que absolutamente tudo que seja produzido hoje seja nocivo ou repulsivo. Adotar essa postura seria vestir a casaca de um elitismo que, na melhor das hipóteses, pode ser chamado de bocó. Com um pouco de paciência e perseverança, é possível encontrar coisas que são positivamente surpreendentes. Mesmo autores de obras mais ou menos descartáveis podem produzir peças de qualidade e nos inspirar reflexões importantes sobre a vida, o Universo e tudo o mais (como diria Douglas Adams).

Eu sou, desde a adolescência, fã da banda inglesa Black Sabbath. Eu gosto das músicas, gosto das melodias, gosto tanto da voz de bêbado chorão de Ozzy Osbourne quanto da voz possante de Ronnie James Dio (os dois melhores vocalistas da banda, na minha modesta opinião). Também admito, porém, que muitas das músicas da banda não são, do ponto de vista humano, aproveitáveis: falam de coisas superficiais e supérfluas com uma pitada de ocultismo aqui e ali. Isso não me faz gostar menos da banda, mas me faz ter um posicionamento crítico sobre ela.

Em 2013, a banda lançou um novo álbum, intitulado “13”. A primeira música a ser divulgada, em formato de single, foi “God Is Dead?”. A música lembra um pouco a primeira fase da banda, quando as músicas eram mais lentas e cadenciadas, buscando criar uma atmosfera sombria. Composta a seis mãos – Ozzy Osbourne, Tony Iommi e Geezer Butler, três dos quatro fundadores da banda –, a música ganhou o Grammy na categoria Best Metal Performance em 2014. Do ponto de vista melódico, não é exatamente uma obra-prima, nem mesmo se comparada com outras músicas da banda. Ainda assim, “God Is Dead?” é uma das melhores músicas já compostas pelo Black Sabbath, e a razão disso se encontra na letra da música.

O título da canção remete imediatamente ao celebre aforismo 125 de “A Gaia Ciência”, do filósofo alemão Friedrich Nietzsche:

Deus está morto! Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos de inventar? A grandiosidade deste ato não será demasiada para nós? Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas dignos dele? Nunca existiu ato mais grandioso, e, quem quer que nasça depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste ato, de uma história superior a toda a história até hoje!

A música trata da crise de um homem que vive em tempos ímpios – em nossos dias, para ser mais claro. O eu lírico da canção se depara com o deserto existencial a seu redor, com a degeneração generalizada do homem e do mundo, e questiona se, de fato, Deus está morto.

Rivers of evil run through dying land
Swimming in sorrow
They kill, steal, and borrow
There is no tomorrow
For the sinners will be damned.
Ashes to ashes
You cannot exhume a soul
Who do you trust when corruption and lust,
creed of all the unjust,
Leaves you empty and unwhole?

Rios de maldade correm pela terra moribunda
Nadando em tristeza
Eles matam, roubam e tomam
Não há amanhã
Pois os pecadores serão condenados.
Cinzas às cinzas
Você não consegue exumar uma alma
Em quem você confia quando a corrupção e a luxúria,
Credo de todos os injustos,
Deixam-no vazio e incompleto?

Apesar de tudo dizer a ele que Deus está, de fato, morto, há um impulso vital que brota de sua alma e que o faz resistir, em última instância, a aceitar que Deus esteja morto. Mesmo assim, percebe-se que essa luta se dá de maneira intensa: a letra deixa entrever que, desde sempre, ele foi ensinado a acreditar que não há Deus.

But still the voices in my head
are telling me that God is dead
The blood pours down
The rain turns red
I don’t believe that God is dead
God is dead

Mas as vozes na minha cabeça
Me dizem que Deus está morto
O sangue verte
A chuva fica vermelha
Eu não acredito que Deus está morto
Deus está morto

Essa música fala ao coração mesmo dos dias que vivemos. Creio que seja improvável encontrarmos na história humana um período em que o sagrado, o transcendente – Deus, em última instância –, tenha sido tão atacado sob os mais diversos rótulos: insegurança, muleta psicológica, patologia mental, obscurantismo, dentre outros. No entanto, o homem possui dentro de si um poço sem fundo, um desejo infinito por um bem que seja infinito. Quando o homem silencia, e se torna capaz de encarar esse poço sem fundo, é impossível não se sentir inquieto, caso encare a coisa de maneira honesta.

Ou Deus está morto e esse anseio profundo do homem por Deus é o pior transtorno psicológico conhecido pela ciência, ou o mundo está errado e Deus não está morto – tertium non datur, não há terceira opção. Essa é a reflexão que a música “God Is Dead?”, do Black Sabbath, induz a quem a ouve com atenção. Responder a essa pergunta é, penso eu, uma tarefa urgente para qualquer um que sinta, mesmo que não consiga enunciá-lo explicitamente, que há algo de errado no mundo em que vivemos.

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