Alexamenos fidelis

Detalhe do grafite de Alexamenos.

Detalhe do grafite de Alexamenos.

Quando falamos que a religião mais perseguida no mundo é o Cristianismo, é bem provável que nossos interlocutores torçam a boca num sorrisinho meio cínico e, talvez, até soltem uma sonora gargalhada. Como é possível, dizem, que a maior e mais poderosa religião do mundo seja, igualmente, a mais perseguida? Quando fornecemos exemplos concretos – os egípcios coptas martirizados pelo Estado Islâmico, os universitários cristãos fuzilados no Quênia, as igrejas atacadas pelo Boko Haram na Nigéria –, há uma certa pressa em se afirmar que esses foram “casos isolados”.

O Cristianismo e seus fiéis são atacados todos os dias das maneiras mais variadas possíveis. O derramamento de sangue, usualmente realizado em shows de horror extremos e grotescos, não é, entretanto, a principal forma dessa perseguição. Há uma maneira mais sutil e muito mais banal de se perseguir a fé cristã, uma forma que o Papa Emérito Bento XVI chamou de martírio da ridicularização: a zombaria, o sarcasmo e a ofensa travestidos de humor e protegidos pelo princípio da liberdade de expressão.

Por mais que pensemos que isso é um fenômeno recente, trata-se de algo que acontece desde os princípios do Cristianismo. E é perto do Monte Palatino, uma das sete colinas de Roma, que se encontra uma evidência de como o martírio da ridicularização é algo tão antigo quanto a própria fé cristã.

Em 1857, durante escavações realizadas no Monte Palatino, descobriu-se uma edificação que ficou conhecida como “domus Gelotiana” (casa de Gelócio, em tradução livre). Essa edificação foi adquirida pelo imperador Calígula e, após sua morte, transformada em paedagogium (uma escola para pajens imperiais). Numa das paredes da construção, foi encontrado um grafite em que aparece, crucificada, uma figura humana com cabeça de eqüino (um cavalo ou um burro, não se sabe), e, a seus pés, um homem em aparente estado de adoração. O desenho é acompanhado de uma inscrição em grego que diz: “Alexamenos cultua seu deus”. Estima-se que o grafite tenha sido feito no ano 200 d.C., mais ou menos.

O tom ofensivo do grafite é evidente. Não é novidade que os cristãos foram brutalmente perseguidos dentro do mundo romano, inclusive pela própria autoridade imperial – as perseguições de Nero e Diocleciano são bem ilustrativas. E é difícil pensar que o derramamento de sangue de tantos cristãos ocorresse em um ambiente acolhedor e hospitaleiro para essa fé. O grafite de Alexamenos – ou graffito blasfemo, como também é conhecido – é apenas um lembrete de como a fé cristã, desde o seu início, foi escarnecida e hostilizada, fosse com palavras ou com a morte.

No entanto, sempre houve cristãos que enfrentaram corajosamente essas formas de martírio. O exemplo de coragem e serenidade daqueles que foram devorados pelos leões ou queimados vivos no Circo de Nero, para entretenimento do imperador e da plebe, acabou atraindo muitas pessoas para a fé cristã. Essa coragem e essa serenidade também foram demonstradas no caso do grafite. Num aposento contíguo ao do desenho, encontraram uma inscrição simples e direta: Alexamenos fidelis (“Alexamenos é fiel”).

Diante do escarnecimento de uma imagem satírica, a resposta foi uma singela frase composta de apenas duas palavras. Esta é a postura que se espera dos cristãos de sempre, de ontem e de hoje, na defesa de sua fé: uma simplicidade cheia daquela naturalidade que somente uma vida coerente pode dar. Essa vida coerente deve se manifestar em todos os lugares – no trabalho, na universidade, na ação política, até mesmo no boteco da esquina com os amigos –, e somente essa unidade de vida faz frutificar o que quer que façamos. É essa a receita para enfrentar de peito aberto, sem ceder ao medo, o martírio da ridicularização que um mundo cada vez mais secularizado e cínico, o nosso mundo, nos impõe.

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