“Longa vida à biblioteca pessoal”, por Gracy Olmstead

William W. Churchill, Woman Reading on a Settee, ca. 1905–10.

William W. Churchill, Woman Reading on a Settee, ca. 1905–10.

Por que os livros físicos não morrerão? Porque, “como a bicicleta, o livro é uma invenção perfeita, e é muito, muito difícil que a perfeição morra”, escreve William Giraldi para The New Republic. “O carro não matou a bicicleta, e a internet não matará o livro”. Ainda assim, o excelente artigo de Giraldi trata muito mais do que os efeitos da tecnologia sobre os livros físicos. É mais como uma carta de amor à biblioteca pessoal:

O que significa quando o que você tem é essencial para definir quem você é? Em nossa compreensão comum sobre adquirir coisas, tachamos isso de materialismo, consumismo, compulsão. Mas acredito que você vai concordar que adquirir livros não é o mesmo que adquirir sapatos: alguém eu tenha mil livros é alguém com quem se quer conversar; alguém que tenha mil sapatos é alguém que provavelmente pertence aos Kardashian. Livros não são objetos no mesmo sentido que sapatos o são. Foi isso o que Milton quis dizer em sua sublime “Aeropagitica”, tão necessária hoje quanto o foi em 1644, quando afirmou que “livros não são coisas absolutamente mortas, mas contém uma potência de vida em si mesmos tão ativa quanto da alma da qual descendem; não, eles preservam, como num frasco, os mais puros extratos e eficácia daquele vivo intelecto que os geraram.”

Para muitos de nós, nossas coleções de livros são, pelo menos em grande medida, semelhantes aos nossos filhos – são manifestações da nossa identidades, incorporações da nossa individualidade; são uma dinâmica interior intensamente externalizada, uma sensibilidade, uma visão de mundo definida e objetificada. Para os leitores, os livros que leram são os lugares onde estiveram, e suas coleções são evidências de suas jornadas.

Essa ideia de profunda posse pessoal e orgulho me lembraram de um artigo de James Poulos em The New Atlantis, no qual lamenta nosso paulatino abandono da ideia de propriedade. Ao invés de procurar por coisas, ele escreve, nós enfatizamos cada vez mais a “experiência” e o “acesso”.

Todavia, possuir livros – livros físicos – confere-nos experiências de conforto que não estão disponíveis em empréstimos de curto prazo. Essas experiências são apenas adquiridas através do (frequentemente obsessivo) trabalho de colecionar a longo prazo, repetir leituras cuidadosamente, e crescer gradualmente em orgulho pessoal. E ainda que falemos de que uma “economia solidária” tornou-se possível com a internet, o compartilhamento é muito mais significativo quando feito pessoalmente através de objetos físicos, como os livros. Quando emprestamos nossa benquista cópia de “Anna Karenina”, de Tolstoi, repleta de comentários e destaques que fizemos, estamos compartilhando um pedaço de nós mesmos. Eu não teria essa mesma sensação se emprestasse uma cópia virtual do mesmo livro. Isso faz do compartilhamento um ato mais pessoal e significativo.

“Acesso”, em contrapartida, pode ser algo esmagador no mundo virtual da leitura: uma estante de livros é necessariamente finita e digerível, mas a cacofonia virtual de leituras é tediosamente paralisante em sua magnitude. Encaramos possibilidades ilimitadas como leitores nos dias de hoje: um fluxo quase eterno de livros, novos títulos constantemente publicados, uma sucessão interminável de livros velhos apodrecendo nas prateleiras, palavras sendo escritas por jornalistas e autores diariamente, sempre acrescentando mais ao já aterrador volume de obras.

Vemos esse louco cataclismo de livros e colapsamos: sentimos surpresa e horror diante da nossa própria finitude – sabendo que nunca conseguiremos ler nosso 5.000º volume (isto é, se conseguirmos ler pelo menos uns dois milhares). Ainda assim, Giraldi escreve:

Uma vez que os bibliófilos ficam felizes em admitir a absurdidade, a imensa impraticabilidade de juntar mais livros do que há dias para lê-los, uma coleção deve ser mais do que lembrança – também deve ser expectativa. Sua biblioteca pessoal, desmesuradamente inchada de coisas suas, é a promessa do melhoramento e do prazer que hão de vir, uma excitante antecipação, um lembrete do prazenteiro trabalho que deve ser feito, um sinal daqueles lugares nos quais seu intelecto e sua imaginação querem vaguear. É dessa forma que a pergunta “Você já leu todos esses livros?”, feita por aqueles que não leem, não consegue captar o cerne da questão. A regência está equivocada: não é “você já leu todos?”, mas “você vai ler todos?”, pergunta para a qual, a propósito, o bibliófilo ainda deve responder “não”. Agonizantemente cônscio da duração da vida humana, a intenção do colecionador não é ler todos os livros, mas, como E. M. Forster escreveu em seu ensaio “My Library”, simplesmente sentar junto deles, “consciente de que eles, com seu conhecimento e charme acumulados, estão esperando para ser usados” – ainda que, como bem sabe Forster, os livros não necessitem ser usados para serem úteis.

A concretude dos livros reais nos livra da prisão da infinitude virtual. Não olhamos para uma interminável nuvem de volumes sem vida – mas, ao contrário, para a nossa própria coleção finita, e humildemente entendemos que eles ainda são demais para nós. Jamais conseguiremos lê-los todos, mas ainda assim desenvolvemos amor por eles. Colecionamos os livros por amor, e por esperança: procuramos ler tantos quantos pudermos ao longo de nossas vidas. Quanto aos outros, guardamo-los para as gerações vindouras. Eu compro livros para meu próprio proveito – mas também os compro para meus filhos.

Comprar livros é algo que cria laços – com o nosso ambiente físico, é claro, mas também com o passado e com o futuro. Investimos em livros que esperamos ler no futuro, e, ao comprá-los, damo-nos a nós mesmo um incentivo para manter a chama da leitura acesa em nós, a despeito das distrações e dificuldades. Guardamos livros velhos, por causa das memórias antigas e das alegrias profundamente caras que nos recordam, meramente por seu toque. Quando Jonathan Crombie, o ator que interpretou Gilbert Blythe na adaptação cinematográfica de “Anne of Green Gables”, faleceu, um mundo de leitores e cinéfilos lamentou e chorou. Pode parecer estranha essa profunda conexão com uma pessoa que jamais conhecemos. Mas, para mim, Gilbert e Anne e Diana eram de fato “amigos do peito”. Eu cresci com eles, seu amadurecimento confundindo-se com o meu próprio. Sempre que vejo uma cópia de “Ivanhoé”, penso nos dias que passei absorta nele, saturando meu cérebro com seu romantismo e seu cavalheirismo medievais. Eu o lia em voz alta para meus irmãos menores, traduzindo o inglês em termos mais simples para que eles entendessem, e, talvez, gostassem como eu estava gostando. Esses livros ainda têm páginas amassadas, manchas de água, passagens sublinhadas e capas desgastadas de amor. Eles são uma parte de mim – suas capas, páginas e ilustrações representam para mim algo que nada poderá substituir, uma vez que não tenho esse tipo de ligação com a minha versão de Middlemarch para iPad.

O que ansiamos, quando bibliófilos anseiam pelo livro físico, é mais do que uma “experiência sensorial”. É mais do que o cheiro, mais do que a estética, mais do que o estrépito de um livro pesado sendo fechado, ou que o farfalhar de páginas sendo viradas por dedos impacientes.

Nós tememos a morte dos livros físicos porque eles são nosso passado e nosso presente, e desesperadamente esperamos que sejam nosso futuro. São mais do que objetos: eles se tornaram nossas memórias, e perdê-los significaria perder um pouco de nós mesmos.

Isso pode soar melodramático. Mas quando observo os volumes na minha estante e considero as horas dedicadas a eles, não consigo imaginar a perda que sua destruição iria me causar. Como Giraldi, eu acredito que “livros, como o amor, tornam a vida digna de ser vivida”.

Gracy Olmstead é editora associada de The American Conservative (TAC). A tradução do artigo original, em inglês, foi gentilmente autorizada pela TAC.

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