O martírio “civilizado” e a cruz do cristão

O quadro “Eggs Benedict”, de Niki Johnson. (Fonte: Pfister Hotel)

O quadro “Eggs Benedict”, de Niki Johnson. (Fonte: Pfister Hotel)

Niki Johnson é uma artista plástica de Milwaukee. Bom, pelo menos é assim que ela é vista e se apresenta. Niki Johnson possui uma habilidade – eu ia usar a palavra “talento”, mas não creio ser o caso – singular: ela é capaz de fazer montagens visuais inusitadas com camisinhas. Em 2013, Niki recebeu de uma fabricante de preservativos uma doação de aproximadamente 1,2 milhão de camisinhas. As camisinhas foram doadas para que Niki fizesse sua “arte”. Com esses preservativos, e mais 20 outros companheiros de ramo, Niki montou uma exposição intitulada Preservatif, que estreou no ano passado, em 1º de dezembro – Dia Mundial de Combate à AIDS –, na Stockholm Gallery de Milwaukee. O vernissage da exposição contou inclusive com uma palestra organizada pela Planned Parenthood de Wisconsin.

Um dos trabalhos mais aclamados (e polêmicos) de Niki Johnson será exibido, a partir de outubro deste ano, no Milwaukee Art Museum. Trata-se de uma representação do Papa Emérito Bento XVI feita com 17 mil camisinhas coloridas. A obra intitula-se “Eggs Benedict” – um trocadilho entre o nome do Papa Emérito e a receita culinária de mesmo nome – e foi adquirida pelo museu para compor seu acervo. De acordo com Niki, a obra foi inspirada nas declarações do Papa Bento XVI a respeito da utilização de preservativos no combate à AIDS em sua primeira visita ao continente africano, em 2009.

Na época, as declarações de Bento XVI – que apenas reafirmou o ensinamento da Igreja Católica acerca de moral sexual e contracepção – causou furor, ira e reações as mais violentas, e teve uma enorme repercussão. Infelizmente, o posicionamento do Dr. Edward C. Green – chefe do Projeto de Investigação e Prevenção da AIDS da Universidade de Harvard, que referendou as declarações de Sua Santidade – não tiveram a mesma publicidade, mas isso é outra história. O fato é que essa foi uma dentre tantas declarações de Bento XVI que provocaram ondas e mais ondas de braveza de todos os que acusam a Igreja Católica de retrógrada, conservadora, medieval, etc. e tal.

O quadro do Papa Emérito Bento XVI feito com camisinhas é ofensivo? Claro. Niki Johnson é adepta de uma visão ativista da arte, e sua representação de Bento XVI não é ideologicamente despropositada: seu objetivo é utilizar o ultraje e a ofensa como maneira de atrair atenção do público. Uma tática semelhante de causar polêmica e burburinho é utilizada pela (agora mundialmente) famosa revista Charlie Hebdo. Muitas das capas desse semanário são deliberadamente ofensivas – e, na minha humilde opinião, impublicáveis –, dotadas de um profundo espírito iconoclasta.

Ao contrário do que aconteceu com o Charlie Hebdo, não haverá nenhum grupo de católicos armados até os dentes invadindo o Milwaukee Art Museum para massacrar Niki Johnson e quem quer que esteja por perto. Aliás, a grotesca representação do Papa Emérito Bento XVI não provocará no próprio nenhum sentimento de revolta, de indignação ou de raiva. Pelo contrário: ouso dizer Bento XVI, se souber da existência dessa obra representando-o, ficará efetivamente contente.

Bom, esse é o momento em que você deve estar franzindo o cenho. “Como assim Bento XVI ficaria contente ao ver uma porcaria dessas?!”, pensa você. Não estou ficando louco ao afirmar isso. Vejamos o porquê.

No em setembro de 2010, Bento XVI fez uma histórica viagem apostólica ao Reino Unido. Durante essa viagem, celebrou a Missa de beatificação do Cardeal John Henry Newman. Na vigília da beatificação, celebrada no Hyde Park, Londres, Bento XVI disse (grifo meu):

A verdade que nos torna livres não pode ser conservada só para nós; exige o testemunho, precisa de ser ouvida, e no fundo o seu poder de convencer provém dela mesma e não da eloquência humana nem dos raciocínios nos quais pode ser acomodada. Não distante daqui, em Tyburn, um grande número de nossos irmãos e irmãs morreram pela fé; o testemunho da sua fidelidade até ao fim foi muito mais poderoso que as palavras inspiradas que muitos deles disseram antes de abandonar tudo pelo Senhor. Na nossa época, o preço que deve ser pago pela fidelidade ao Evangelho já não é ser enforcado, afogado e esquartejado, mas muitas vezes significa ser indicado como irrelevante, ridicularizado ou ser motivo de paródia. E contudo a Igreja não se pode eximir do dever de proclamar Cristo e o seu Evangelho como verdade salvífica, fonte da nossa felicidade última como indivíduos, e como fundamento de uma sociedade justa e humana.

A utilização de uma forma deturpada e grotesca de arte para ofender o Papa Emérito Bento XVI pode ser descrito, diante do que ele próprio falou, como martírio da ridicularização. E a minha certeza no contentamento de Bento XVI ao se ver ridicularizado não se baseia num suposto masoquismo do Papa Emérito, mas numa passagem simples:

Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós. (Mt 5, 11-12)

Obras plásticas asquerosas sob o rótulo de arte continuarão a ser feitas. Indignar-se diante disso é justo. Mas que ninguém se engane: não há Cristianismo verdadeiro sem cruz. Sem essa disposição constante, firme e generosa para o sacrifício, não há como ser um cristão de verdade.

Em tempo: assinem a petição do uCatholic contra a exposição dessa obra clicando aqui.

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3 comentários sobre “O martírio “civilizado” e a cruz do cristão

  1. Caro Felipe, Parabéns pelo seu texto como sempre muito bem escrito, mesmo não concordando em partes, não pude deixar de aprender contigo.
    Lembrei imediatamente da cantora Sinead O’Connor que estupidamente rasgou uma foto do papa João Paulo II e a Madonna protestou alegando que tinha formas mais inteligentes de protesto.
    A imagem do Papa de camisinha, achei sensacional.
    Novamente obrigado pela informação e a delicia de seu texto.

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  2. Texto maravilhoso! Deus abençoe a você, Felipe! Exatamente, devemos é ficar felizes, quando o mundo nos ridicularizar ou nos perseguir por defendermos a verdade do Evangelho.Tanto você, como o nosso amado Papa Emérito serão grandemente recompensados por Deus!

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