Beauvoir, Foucault e as crianças cozinheiras

sexual revolution

O termo “cultura do estupro” é uma das vedetes da mídia e dos luminares de Terra Brasilis. Os seus pressupostos são muitos, de modo que, por haver textos mais bem detalhados sobre isso em outros lugares, não serão tratados aqui de maneira pormenorizada. A “cultura do estupro” é utilizada para explicar a ocorrência de determinados comportamentos que, a bem da verdade, tem se tornado cada vez mais encontradiços em nossa sociedade. Ainda que os “especialistas” acertem na preocupação quanto a esses comportamentos, as premissas das quais partem são equivocadas.

É muito sério falar de uma “cultura do estupro” na sociedade brasileira. E é temerário fazê-lo quando o ato do estupro é visto pela própria sociedade como um dos crimes mais hediondos que se pode cometer contra uma pessoa, especialmente mulheres. Um fato que ilustra muito bem isso é a maneira como estupradores são tratados em presídios: dentro da ética do crime (se é que podemos chamá-la assim), o estupro é considerado uma abominação tamanha que muitos daqueles que cometem esse crime precisam ser mantidos em isolamento para que não sejam violentados à morte.

No entanto, existe sim uma espécie de cultura ligada à sexualidade contemporânea que tem permitido com que manifestações de comportamentos imorais e sexualmente agressivos. E o nome dela é simples: pornografia. O embotamento da percepção moral provocado pela overdose de pornografia – um dos pontos cruciais da chamada revolução sexual – que a sociedade ocidental tem sofrido desde, pelo menos, meados dos anos 1960, tem gerado um sem-número de distúrbios sociais e morais severos que não mais podemos ignorar. E, para ilustrar esse ponto, há dois exemplos bastante recentes.

Eduardo tem 13 anos. É um garoto cheio de estilo. Gosta de cozinhar. Na verdade, gosta tanto que, desde os seis anos, tem desenvolvido suas habilidades culinárias. O menino é um dos participantes da edição do MasterChef Júnior, programa exibido na TV aberta pelo canal Band. Desde o início do programa, Eduardo tem sido alvo de comentários de sexuais em diversas redes sociais – alguns envolvendo, inclusive, a menção a estupro. No entanto, o caso de Eduardo tem sido ofuscado por outro caso, também de uma jovem concorrente do programa de culinária infantil: Valentina, de 12 anos. Desde sua primeira aparição, uma quantidade considerável de usuários de redes sociais publicou mensagens de teor tão grotesco que ultrapassam mesmo o limite do bestial. Não se trata aqui de uma análise hipersensível de comentários irrefletidos; estes costumam ser, mais que um ato falho, manifestações explícitas dos valores que alicerçam a consciência e o caráter de quem os faz, e que compõem o imaginário da nossa sociedade.

Uma jornalista chegou a levantar a bandeira acerca da “cultura do estupro” como a causa de tantos comentários agressivos e brutais. A jornalista em questão escreveu, sobre o caso Valentina, o seguinte (grifos meus):

Vamos deixar algo claro desde o começo: qualquer tipo de relação de natureza sexual com uma criança é estupro. Uma criança nunca pode ter uma relação sexual consensual porque ela é criança e não pode tomar esse tipo de decisão. Por lei. Vamos dar o nome certo às coisas. Aqui não estamos falando de pedofilia, que é uma doença que pode ser tratada antes que a pessoa cometa qualquer crime  —  seja ele consumir pornografia infantil ou o estupro. Nenhum desses homens que comentou sobre a MasterChef é doente, eles apenas acham que têm o direito de falar absurdos como esse porque olham para ela e não enxergam uma criança, mas uma mulher.

Duas coisas se destacam na argumentação da jornalista: (1) relações sexuais com crianças são estupro, e eis uma definição legal; (2) pedofilia é um distúrbio psíquico de atração sexual por menores que, quando não identificado e tratado, leva ao estupro de crianças. Qualquer aplicação de boa lógica poderia estabelecer um vínculo entre as duas premissas e chegar, legitimamente, à seguinte conclusão: todo estuprador de crianças é um pedófilo. Logo, falar-se em uma “cultura do estupro” ao invés de uma “cultura da pedofilia” é, pelos próprios argumentos, um despropósito.

E tal despropósito aumenta exponencialmente quando vemos que, em outro texto da mesma jornalista, há a defesa de que os pedófilos são, na verdade, apenas pessoas doentes. No fundo, a idéia é de que o pedófilo é incapaz de controlar seus instintos deturpados e que, por falta de ajuda para tratar essa doença, acaba cometendo crimes. A mesma jornalista aponta que esses crimes são frutos da “cultura do estupro”, não da pedofilia, ainda que sejam efetivamente os pedófilos não tratados que abusam sexualmente de crianças. Existe algo aí muito importante que falta nessa cadeia de raciocínio: lógica.

Querer colocar a culpa sobre o abuso sexual de crianças nos ombros de um termo abstrato chamado “cultura do estupro” e tratar o verdadeiro abusador, o pedófilo, como um mero doente mental que, se tivesse tido tratamento, não teria cometido o crime, é, ao fim e ao cabo, responsabilizar um conceito-curinga ao invés de um comportamento concreto apresentado por indivíduos concretos. Tratar os pedófilos como pessoas que não têm liberdade, uma vez que são dominadas por sua pretensa patologia psicológica, é eximi-las de qualquer culpa e jogar toda a culpa nas mãos daquela que é a mãe de todas as opressões: a sociedade patriarcal, burguesa, falocrática e cripto-fascista.

Mas essa perigosa inversão, divulgada e defendida ad nauseam por um pelotão de palpiteiros que se escondem sob o guarda-chuva de “formadores de opinião” em veículos de informação de grande circulação e capilaridade, não é exatamente uma novidade. Duas pessoas foram responsáveis por essa visão de que a pedofilia é, lato sensu, um mero distúrbio, e, em casos concretos, apenas a manifestação de um tipo de afeto tão válido quanto o amor entre um homem e uma mulher adultos: Michel Foucault e Simone de Beauvoir.

Michel Foucault (dir.) e Jean-Paul Sartre, 1972.

Jean-Paul Sartre (acendendo um cigarro) e Michel Foucault participando de protesto contra a violência nas prisões francesas, em 17 de janeiro de 1972.

Tratei de Mme. de Beauvoir no meu último artigo de maneira mais detalhada, mas pouco falei de Foucault, um dos intelectuais de esquerda mais idolatrados pela intelectualidade e pela academia ocidentais, especialmente no Brasil. Em seu diálogo com Guy Hocquenghem e Jean Danet, em 4 de abril de 1978, Foucault afirma peremptoriamente (tradução e grifos meus):

Consentimento é uma coisa; outra coisa completamente diferente ocorre quando tratamos da probabilidade de se acreditar em uma criança quando, falando de suas relações sexuais, suas afeições, seus ternos sentimentos, ou seus contatos (o adjetivo sexual é freqüentemente um embaraço nesse ponto, pois não corresponde com à realidade), a habilidade de uma criança em explicar seus sentimentos, o que realmente aconteceu, o quanto é crível, essas são coisas completamente diferentes. Agora, quando se trata de crianças, há a suposição de que elas não podem nunca ter uma sexualidade direcionada a adultos, e é isso. Em segundo lugar, supõe-se que elas não sejam capazes de falar sobre si próprias, de serem suficientemente lúcidas sobre si mesmas. Elas são consideradas sexualmente incapazes e não se considera que sejam capazes de falar sobre isso. Mas, no fim das contas, ouvir uma criança, escutar suas palavras, prestar atenção à sua explicação sobre o que de fato foram suas relações com alguém, adulto ou não, contanto que se as ouça com alguma simpatia, deve permitir que se estabeleça mais ou menos o grau de violência, se houve, e o grau do consentimento que foi dado. E assumir que uma criança é incapaz de explicar o que aconteceu e de dar seu consentimento são dois abusos intoleráveis, verdadeiramente inaceitáveis.

Em qualquer caso, uma barreira legal de idade não tem sentido. Novamente: deve-se acreditar na criança quando diz se ela foi ou não sujeita à violência.

Consentimento é uma noção contratual.

Os casos recentes de assédio e agressividade sexual contra os pequenos Eduardo e Valentina não fazem parte de uma “cultura do estupro” produto da toda-poderosa e toda-malvada sociedade patriarcal burguesa e seu tacanho conjunto de preconceitos conservadores e comportamentos reacionários. Ao contrário, eles são produtos de intelectuais de gabinete (como diria Burke) como Simone de Beauvoir e Michel Foucault, que exaltavam a loucura, condenavam os tabus e exaltavam aquelas transgressões que Nietzsche chamava de forças dionisíacas, originadas no ímpeto do homem de viver liberto de quaisquer amarras de costumes e moral. Foram esses mesmos ideólogos que, a partir dos anos 1960, contribuíram de maneira particularmente diabólica para a propagação da cultura da pornografia através dos axiomas da revolução sexual.

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3 comentários sobre “Beauvoir, Foucault e as crianças cozinheiras

  1. Caro Felipe, mais uma vez parabenizo você por seu texto. Infelizmente hoje não sei responder aos meus filhos se a TV está desesperada em expor crianças como o referido programa, ou o pior de todos, o supernanny ( aquele que os pais expõe os problemas de seus filhos para todos), ou a sociedade retrocedeu e não sabe mais como lidar com esses programas. Como a pornografia hoje é acessível a todos, inclusive para a criança com um smartphone e segundo alguns levantamentos falam em arrecadação em bilhões para essa “indústria” (Não trato esse problema como brasileiro, e sim mundial). Mas a principal questão que coloco aqui é que se essas crianças realmente querem essa exposição, ou o ego de seus pais foi maior ($$$), acredito que o assunto é muito além da pedofilia e sim da formação do indivíduo. O Silvio Santos foi crucificado e teve que tirar aquela menina, a Maisa, do ar, graças ao MP, não seria a hora da lei ser igualitária para todos e não permitir essa exposição desnecessária?
    Grato

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  2. Concordo completamente quando você fala de cultura da pornografia. E indo mais além podemos falar de uma cultura da luxúria (prazer sexual desordenado) ou da cultura do hedonismo. Ou seja, a ideia de que devemos retirar prazer sexual e sensual de tudo e de todos, até mesmo de crianças.

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