Uma boa mãe apóia um bom aborto

Mãe segurando o filho. Detalhe de desenho de J. C. Leyendecker.

Mãe segurando o filho. Detalhe de desenho de J. C. Leyendecker.

Não conheço Rita Lisauskas. Fiquei sabendo de sua existência através de um blog no site do jornal O Estado de S. Paulo intitulado “Ser mãe é padecer na internet”. Para seu último texto do blog, Rita escolheu uma bela manchete: “Sou mãe e a favor do aborto”. Curioso. Resolvi ler o texto, (in)felizmente. E, após ter me deparado com uma porção considerável de afirmações perigosas, para dizer o mínimo, resolvi escrever um punhado de comentários. Eles estão abaixo em itálico, e se referem sempre aos grifos em vermelho que fiz ao texto original.

Eu nunca fiz um aborto. E se você não quiser fazer um aborto, também não é obrigada a fazer.

Mas todas as mulheres que querem abortar e têm dinheiro vão à clínicas chiquérrimas onde são tratadas com todo o respeito, higiene e com que há de mais moderno inventado pela medicina. Também são servidos cafés e petit-fours “Está boa a temperatura do ar condicionado, Dona Mariana?” [1]

[1] Para alguém que nunca abortou, Rita Lisauskas parece conhecer bem como é uma chiquérrima clínica de aborto. Ou isso, ou se trata apenas de um recurso meramente retórico para o que virá a seguir.

Tenho algumas amigas que já abortaram. Não foi uma escolha fácil para nenhuma delas. Mas tudo foi feito com segurança. Uma delas porque achou que não tinha estrutura financeira e emocional para ter um filho. Mas há mulheres que abortam porque são vítimas de estupro. Outras simplesmente porque não se veem como mães e querem dar outro rumo para vida. [2] Algumas foram abandonadas pelo parceiro idiota, homens que usam e abusam do direito de praticar um aborto às avessas, simplesmente fugindo do mapa e fingindo que o problema não é com eles. [3] Foram lá e fizeram. Sentiram culpa? Algumas sim, outras não. Saíram de lá vivas e saudáveis? Saíram.

[2] Notamos que tudo pode servir de justificativa para o aborto – desde violência sexual, um crime bárbaro que deixa seqüelas físicas e psicológicas profundas, até o simples “ah, não estou afim de ser mãe”. Olhando por esse lado, é difícil não perguntar: mulheres que decidiram abortar “simplesmente porque não se veem como mães e querem dar outro rumo para vida” realmente tiveram de fazer uma escolha difícil?

[3] Uma das comparações mais estapafúrdias feita pelas feministas, das mais perspicazes às mais pedestres, é entre o aborto praticado pela mulher e o abandono praticado pelo homem diante de uma gravidez indesejada. Abandonar uma mulher grávida, que carrega seu próprio filho no ventre, é um ato de covardia indesculpável. Nisso, todos concordamos. Mas, por mais covarde que seja, ele não se compara à crueldade que é matar uma criança ainda no ventre materno. A desproporção entre os dois atos é tamanha que misturar as duas coisas propositadamente é um sinal claro de desonestidade intelectual.

As mulheres que não têm dinheiro para um aborto na clínica chiquérrima parecem não ter direito ao próprio corpo [4], ainda que sofram com os mesmos dilemas. Não têm estrutura emocional e financeira. Foram estupradas. Não se veem como mães. Abandonadas pelo parceiro que virou as costas para ela, praticando o aborto masculino socialmente aceito. Elas, como não têm dinheiro, como o Estado lhes vira as costas e a opinião pública aponta o dedo (Vagabunda! Na hora de abrir as pernas não pensou nas consequências, né?), compram um remedinho abortivo no mercado negro e sangram até a morte. Ou vão naquela clínica suja da periferia que mais parece um açougue. E morrem. [5]

[4] Toda e qualquer pessoa, homem ou mulher, tem direitos sobre si mesmo, inclusive sobre seu próprio corpo. Uma coisa, entretanto, que sempre fica clara na argumentação feminista é que a criança que se encontra no ventre materno é, também, parte do corpo da mulher. A criança em gestação não é vista como um outro ser humano completamente diferente: seu status, para o discurso feminista, é ou de um apêndice desagradável que pode ser removido, ou de um parasita asqueroso que precisa ser eliminado.

[5] O nível de sociopatia dessas afirmações beira o delírio. Provavelmente Rita Lisauskas deve desconhecer a centenas de iniciativas particulares, muitas delas de cunho religioso, que acolhem mulheres vítimas de violência e que, mesmo sem se verem em condições materiais ou psicológicas de levarem adiante da gravidez, decidem não fazer aborto. Nenhuma dessas mulheres é tida por vagabunda porque “não fechou as pernas”.

As complicações do aborto já são a quarta causa de morte materna no Brasil [6]. É uma questão de saúde pública. E não precisa ser nenhum gênio para descobrir que não são as mulheres da clínica do cafezinho e do petit-four que são mutiladas ou morrem. São as mulheres desesperadas e sem dinheiro. Pobres. Da periferia. São aquelas que não têm com quem contar.

[6] Além de não fornecer qualquer tipo de fonte para fornecer esse dado, Rita Lisauskas apenas repete um dos velhos ritornellos de quem defende o aborto. As informações mais recentes disponibilizadas pelo Ministério da Saúde são do ano de 2011, e lá consta que o número de óbitos maternos em decorrência de aborto correspondeu a 8,4% do total de óbitos maternos, totalizando 135 vítimas. Se Lisauskas tem fontes mais atualizadas e corretas, jamais saberemos: ela as omitiu em favor de um efeito retórico emocional.

Quem diz que é contra o aborto porque é “a favor da vida” não pensa na vida dessas mulheres. A vida delas vale menos que a de alguém que não nasceu? [7] Se esse bebê nascer sem amor, sem grana, sem pai, sem estrutura, sem escola, sem apoio, sem o direito a uma família (já que família agora é só a formada com pai e mãe, né Congresso Nacional), o que será dele?

[7] Aqui, vemos a recorrência de mais um jogo retórico mentiroso de palavras que visam apenas a criar um efeito emocional forte, mas que tem quase nenhuma correlação com a realidade. Uma coisa que Rita Lisauskas parece ignorar é que o próprio aborto fragiliza profundamente a mulher: a ocorrência de auto-lesões propositadas aumenta em 70% (cf. Anne C. Gilchrist, “Termination of Pregnancy and Psychiatric Morbidity”. Psychological sequelae of abortion – The myths and the scientific facts. Berna, 2011); a chance de uma mulher que abortou cometer suicídio aumenta em 6 vezes (cf. Mika Gissler, Elina Hemminki, Jouko Lonnqvist. “Suicides after pregnancy in Finland, 1987–94: register linkage study”. BMJ 1996; 313:1431); e que o aborto está relacionado ao desenvolvimento de transtornos mentais e comportamentais, como abuso de drogas, ansiedade, depressão, além de ideação e tentativa de suicídio (Mota, Natalie P, BA; Burnett, Margaret, MD, FRCPC; Sareen, Jitender, MD, FRCPC. “Associations Between Abortion, Mental Disorders, and Suicidal Behaviour in a Nationally Representative Sample”. Canadian Journal of Psychiatry 55.4 [Apr 2010]: 239-47).

Se é contra a sua religião, não faça. Mas não queira que sua fé decida o que outra mulher deve ou não fazer. Se você não pretende criar o filho de ninguém, se não será você quem dirá a criança que não tem comida em casa, se não será você quem vai reconhecer os traços de um estuprador no rosto dela, se não será você quem irá aguentar os nove meses de uma barriga indesejada, se não será você quem irá explicar aos vizinhos que não, “não, não sou casada”, “não, esse filho não tem pai”, “não, não sou vagabunda”, “não, eu fui estuprada”, “não, eu não estava vestida para ser estuprada”, “não, não usei camisinha”, você não tem direito a opinar sobre a gravidez alheia. E mesmo se respondeu “sim” a alguma das questões acima, também não tem o direito de querer obrigar ninguém a levar uma gravidez indesejada adiante. [8]

[8] Na visão dos defensores do aborto irrestrito, ninguém, absolutamente ninguém tem o direito de dizer à mulher grávida: “Olha, o que você carrega no ventre é uma criança, um ser humano diferente de você, e aborto é a mesma coisa que assassinato.” É o império do subjetivismo. Mesmo que um exército de geneticistas, obstetras, ginecologistas e embriologistas defenda isso e forneça toneladas de evidências científicas sólidas, eles são apenas opressores. O que importa é que matar a criança que se carrega no ventre deve ser um direito humano (!!!), uma garantia inalienável de cada mulher.

Já foi provado: a legalização diminui o número de mortes maternas. Dê uma olhada no nosso vizinho, Uruguai, que jogou o número de mortes de mulheres que abortam próximo a zero. Também diminuirá o número de mulheres que buscam o Sistema Único de Saúde todos os anos para se recuperar de abortos mal feitos. O aborto seguro tem de estar disponível a todas que vão recorrer a ele, porque você querendo ou não, Eduardo Cunha esperneando ou não, as mulheres vão procurar o procedimento como opção para interromper uma gravidez indesejada. [9]

[9] O argumento acima poderia muito bem ser utilizado para, por exemplo, descriminalizar o latrocínio. Afinal, a existência de uma lei que puna o latrocínio não impede que ele seja cometido. O mesmo se estende para o assalto a mão armada, o homicídio, até mesmo a corrupção. A lógica é: se a lei não impede que o crime seja cometido, então, vamos abolir a lei.

O que o Congresso tenta empurrar-nos garganta abaixo é um retrocesso. Mulheres tendo de provar que realmente foram estupradas. Pílulas do dia seguinte proibidas. Cadeia para quem explicar para a mulher que o corpo é dela e que a escolha é dela. [10]

[10] Mentiras que já foram suficientemente expostas em meu último artigo.

Eu amo o meu filho. Porque eu quis ser mãe dele. Lutei para engravidar dele, inclusive. Reservei o melhor de mim para criá-lo. Uma criança só devia vir ao mundo se for desejada. [11]

[11] “Uma criança só devia vir ao mundo se for desejada”. Essa afirmação possui a quintessência do totalitarismo abortista: se eu quero, deixo nascer; se eu não quero, mato. Não há, na visão do abortista, nada intrinsecamente valioso na vida humana. A vida de uma pessoa não tem valor por si mesma, mas por elementos extrínsecos a ela – e, neste caso, o mero desejo de outrem de que ela possa nascer.

Quando lançamos o olhar para o século XX, vemos que foi nele que surgiram as ideologias mais mortíferas de toda a história humana, sistemas filosóficos e políticos que, quando tomaram o poder, dedicaram-se a eliminar deliberada e meticulosamente vidas humanas. O Holocausto nazista, o Holodomor ucraniano, o “Grande Salto Adiante” chinês, os gulags soviéticos, todos eles nos legaram uma montanha com centenas de milhões de cadáveres. Nenhuma dessas tragédias, entretanto, pode ser comparada em escala e em crueldade ao assassinato de uma criança em desenvolvimento, perfeitamente inocente, completamente frágil, no ventre materno.

O aborto é, sem dúvida, a maior calamidade humana de todos os tempos.

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35 comentários sobre “Uma boa mãe apóia um bom aborto

  1. Você certamente está certo sobre muito do que falou, mas o aborto certamente não é mais grave que o holocausto. Simplesmente não é. Quem, em sã consciência, podendo evitar a morte de milhões preferiria evitar a morte de um só?

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    • De acordo com o Dr. Randall K. O’Bannon, responsável pelo estudo “Abortion Statistics: United States Data and Trends”, quase 58 milhões de abortos legais foram feitos apenas nos Estados Unidos desde 1973, ano em que a Suprema Corte julgou o famoso caso Roe v. Wade e descriminalizou o aborto. São, pelo menos, 58 milhões de mortes.

      Sim, isso é mais grave que o Holocausto.

      Curtido por 1 pessoa

      • Obrigado pelo esclarecimento. Não me leve a mal, por favor, mas o texto original não abordava a questão da escala, ou melhor, ao falar da morte de “uma” criança me levou a esta interpretação exagerada de sua conclusão. Sugiro que essa informação sobre a escala do aborto no mundo seja incluída no texto principal em algum momento anterior à comparação com outros grandes massacres para evitar mal entendidos como o meu.
        Uma dúvida: existem estatísticas sobre o aborto nos EUA anteriores a esta lei? É claro que a descriminalização de qualquer coisa deve resultar em sua execução em maior escala, mas seria interessante saber se existem números sobre essa proporção.

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      • É uma excelente pergunta sobre as estatísticas. Certamente deve haver algum estudo compendiando os números de abortos antes e depois de sua aprovação pela Suprema Corte dos Estados Unidos.

        E obrigado pelos comentários! Sinta-se à vontade para participar. 🙂

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  2. Parabéns!
    Ainda bem que a maioria das mulheres não comungam dessa ideologia sanguinária. O que pessoas como você Felipe Melo presta à nossa sociedade é um papel importantíssimo para esclarecer assuntos à pessoas que podem ser frágeis a esse discurso mentiroso das feminazistas. Agora as ideologicamente comprometidas devem ser vencidas no debate de idéias escancarando todo os seus mal-caratismo.

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  3. Olá Felipe!

    Muito bom teus textos, sempre me enriquecem.

    Tenho duas questões apenas:

    1 – Acho que a culpa do pai que abandona é igual em valor a da mãe que abandona (considerando o aborto como uma espécie de abandono).

    O pai tem o dever natural de prover o necessário a mulher e ao filho, se ele não cumpre este papel cai no mesmo erro da mulher que aborta. O pai que abandona o filho o deixa aos lobos, como o Pater Familias que o expunha… Neste ponto esta mulher me parece ter razão.

    Sou netos de colonos alemães e italianos. Segundo os costumes deles, o homem que engravidava uma mulher era forçado a se casar com ela… Se previa este dever do homem neste caso e os próprios pais do moço lhe exigiam a formalização da união diante do padre.

    Se o homem não cumpre a sua parte, é culpado na mesma medida.

    2- Concordo que a criança não é parte da mulher. Mas a concepção parece ser uma decisão que a natureza legou aos pais, assim como a criação dos filhos.

    É errado abortar, é um ato abominável. Mas me parece que obrigar uma mulher a gestar nove meses contra a sua vontade é contra a natureza, que deixou nas mãos dos pais esta decisão. É intervir num âmbito que não é direito intervir.

    Acho que é parecido com o que Santo Tomás sustenta sobre a retirada de uma criança judia de sua família para criá-la no Cristianismo… Parece ser uma intervenção contrária à natureza.

    Não leve a mal, são questões sinceras e sem maldade.

    Grande abraço,

    Jonas

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    • Bom dia, Jonas!

      Sobre os pontos que você levantou, tenho alguns comentários:

      1) Quando o pai abandona uma criança, isso é tão ruim quanto o abandono pela mãe. Mas o aborto não é apenas abandono: é um gesto ativo de eliminação da vida de uma pessoa. O abandono pode gerar isso – por exemplo, quando os pais largam o filho recém-nascido em uma caçamba de lixo, cena que não é difícil de ser noticiada nos dias de hoje -, mas é apenas uma possibilidade.

      Além disso, o abandono não tem por objetivo a morte da criança, mas o afastamento de um “problema” (pois é assim que a criança é vista). O aborto, não: ele tem por objetivo específico a morte da criança, a eliminação de sua vida, a cessação de sua existência. Se abandonar uma criança é um ato vil e criminoso, assassiná-la é proporcionalmente MUITO maior, independente do agente.

      2) Na verdade, a concepção em si mesma não é uma decisão dos pais. Quando se entende os meandros biológicos da concepção, você vê que, mesmo em casais que estão abertos à fecundidade, pode ser muito difícil ter um filho. O que é decisão dos pais é ter um relacionamento sexual que esteja aberto à fecundidade, pois, em condições naturais, eles não podem determinar com 100% de exatidão quando ocorrerá a concepção.

      Mas, uma vez que há a concepção, já não estamos mais falando apenas da vontade dos pais ou do corpo da mulher: trata-se de outro ser humano. Logo, por se tratar de outro ser humano, tanto o homem quanto a mulher tem o dever de não provocar quaisquer danos a essa pessoa, pois esta pessoa, mesmo que ainda esteja no ventre materno, tem direitos humanos inerentes a si mesma.

      Um abraço!

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  4. Vai ser interessante ver a reação do filho dela no futuro, quando ele passar a entender. Ela disse com todas as letras que tem o direito de tê-lo matado. Que tipo de mãe faz uma afirmação monstruosa dessa??

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  5. Oi Felipe, gostei muito do seu artigo, da maneira ponderada e embasada com que vc rebateu os argumentos do artigo. Em tempos que as pessoas não sabem mais discordar de uma opinião com educação e inteligência é um grande alívio!
    Eu penso que toda estas discussoes tiram a energia e o foco do principal, que é a o não se deixar engravidar, ter controle sobre seu corpo e sua sexualidade, exercer essa sexualidade responsavel por homens e mulheres, afinal é preciso 2 para formar 1 bebê.
    A gente não vê posts e campanhas sobre isso, sobre a dificuldade de acesso aos metodos anticoncepcionais, pilulas do dia seguinte, etc
    Temos uma cultura de vergonha, de constrangimento de buscar esses metodos, a pessoa posta que é a favor da legalizacao do aborto mas tem vergonha de ir na farmacia compra anticoncepcionais, de usar camisinha, este tipo de coisas incoerentes.
    É melhor prevenir que abortar, não acha?
    Queria ver um artigo seu sobre isso. Um abraço

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    • Patricia,

      Obrigado pelo comentário! Realmente, o ponto-chave de toda essa discussão é a responsabilidade de se formar uma família. Há muitas pessoas que tratam o aborto como um método de planejamento familiar, o que é absurdo.

      Em breve, vou escrever um texto (ou uma série deles) sobre planejamento familiar. Obrigado pela recomendação! 😉

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  6. Porque a maioria das pessoas parecem indiferentes ao aborto enquanto todos sabemos o que isso significa, porque assistem ao grande empenho de muitos por sua legalização e expansão? Todos nós já assistimos um vídeo no colégio, ou de outra forma soubemos sobre o que é o aborto.

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  7. Você comparou o aborto ao homicídio, mas existem diferenças.
    O homicídio mata alguém que já saiu da barriga da mãe que já foi percebido por outras pessoas fez amizades, inimizades…
    O aborto mata alguém dentro da barriga da mãe. Nos primeiros meses ninguém sabe que a criança existe. Se a mãe aborta ninguém fica sabendo! Por isso é muito mais fácil abortar do que “homicidar”.
    Isso é um fato. Não quero entrar no mérito do ato, mas o fato é que ser contra não muda o fato de ser muito fácil esconder o aborto que não tenha complicações. Assim, a falta de acolhimento por parte do Estado só prejudica mães pobres, pois quem pode pagar faz o procedimento e ninguém fica sabendo.
    Esconder-se no caso do homicídio seria muito mais difícil (no caso do Brasil nem tanto), o que torna uma cruzada para legalizar essa prática sem chances de sucesso.
    Então o caso seria acolher, aconselhar, apoiar, se for o caso abortar, continuar acolhendo, apoiando, educando, na tentativa de minimizar o problema. Criminalizar não resolve, encobre o problema, cria mais preconceito, etc.
    Então não quero saber se a culpa maior é do homem ou da mulher, se matar judeu é pior ou melhor que abortar, se embrião tem alma ou não tem, se ele faz parte do corpo da mulher ou não faz,…….
    Pensemos em resolver o problema.

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    • Oswaldo,

      As diferenças que você citou são acidentais. O fato é que a criança no ventre materno é tão humana quanto a pessoa adulta.

      Outra coisa: a criminalização não visa a prevenir a prática de uma coisa. Nenhuma legislação penal tem esse poder. Somente um apurado senso moral é capaz de prevenir, de verdade, a prática de um crime. A lei penal tem por objetivo a punição dos atos delituosos.

      Assim sendo, e considerando que a criança no ventre materno é tão humana quanto a pessoa adulta, tirar a vida a ambos é assassinato.

      É preciso acolher, aconselhar e apoiar, sim. É nesse sentido que a PL 5069, conforme aprovada pela CCJC, pretende atuar. O que não se pode admitir é que mulheres que foram vítimas de violência sexual tenham sua fragilidade manipulada por pessoas que lucram sobre o aborto, nem que mulheres que não foram violentadas utilizem esse artifício para abortar.

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    • Daí Oswaldo!

      Acho que ridicularizastes as minhas questões 😀

      Questionei o Felipe porque acho que para resolver qualquer problema é necessário, antes, compreendê-lo.

      Por exemplo: a distinção entre o feto e a mulher é muito importante. Se consideras o feto como uma espécie de apêndice da mulher, algo que é parte do corpo da mulher e não um novo indivíduo, tuas conclusões serão tais. Agora, se consideras o feto como um ser humano diferente da mulher, tuas conclusões serão outras.

      Os princípios dos quais se parte são muito importantes para qualquer decisão prática. Se tu partires do princípio que 2+2=5 e construíres uma casa segundo este princípio, será um caos total!

      Assim como o homem não constrói a catedral de Notre-Dame fundado em princípios falsos, assim também não constrói uma grande nação ou civilização fundamentado em princípios falsos.

      Da mesma forma, não adianta resolver o problema criando outro pior. Os europeus precisavam de mão de obra barata e resolveram o problema: escravizaram outros homens…

      Novamente fica claro a necessidade de compreender o problema, compreender as causas e efeitos do problema, para, aí sim, encontrar a solução eficaz deste mesmo problema.

      Grande abraço,

      Jonas

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      • Não tive essa intenção Jonas. Peço desculpas por causar esse entendimento.
        A intenção for dar ênfase para o fato do embrião estar escondido.
        Como disse o Felipe é uma causa acidental. Mas é essa causa que facilita o aborto.
        Então não importa se ela é acidental. O fato é que o aborto está ocorrendo e acho que na maioria dos casos ninguém fica sabendo.
        Concordo quando você diz: “Novamente fica claro a necessidade de compreender o problema, compreender as causas e efeitos do problema, para, aí sim, encontrar a solução eficaz deste mesmo problema.” É nesse sentido que estou tentando alertar que a criminalização não resolve nada, ao contrário, esconde o problema. Se o Estado acolher, aconselhar e não julgar moralmente a mãe muitos problemas que estão escondidos aparecerão e poderão ser melhor resolvidos.
        Nesse sentido também concordo com o Felipe quando diz: ” a criminalização não visa a prevenir a prática de uma coisa. Nenhuma legislação penal tem esse poder. Somente um apurado senso moral é capaz de prevenir, de verdade, a prática de um crime.”
        Esse apurado senso moral não depende da criminalização e é ele que deve ser buscado porque ele é efetivo na redução do aborto. Não entendo por que criminalizar se o objetivo é reduzir a prática. Parece uma contradição a descriminalização com a redução do aborto mas acredito que é isso que acontecerá se a descriminalização vier acompanhada da melhoria do senso moral que deverá ser promovida pelas famílias pelas religiões, pelas pessoas de bem, etc.
        Tenho duas filhas pequenas e não gostaria que elas abortassem. Mas elas são outros indivíduos e por isso tentarei fazer o que é efetivo para tentar evitar o problema elevando o senso moral e dando abertura suficiente para que elas possam sempre contar comigo, independentemente das minhas opiniões. Eu só quero o bem delas e uma radicalização só faria que elas se afastassem escondendo seus problemas sabendo que não poderiam contar comigo.
        Gostaria que as pessoas com posições radicalmente contrárias ao aborto enxergassem que a criminalização não é o caminho mais efetivo.
        Grande abraço a todos.

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  8. Não me recordo de ler um texto com tamanha lucidez quanto esse. Parabéns.

    Uma dúvida que me faz refletir muito sobre esse assunto. Por qual razão as feministas e esquerdistas defendem tanto o aborto em sua essência? Será que realmente é para tornar o mundo melhor? Estas pessoas que, hipocritamente, vêem no aborto uma solução para os futuro criminosos não dão a mínima para os atuais criminosos. Se duvidar até desejam as suas mortes.
    Em minha opinião, a questão do aborto é somente uma tentativa, que vem tendo sucesso, de impor uma superioridade social às mulheres. É como se fosse um revanchismo barato – “vocês homens vão ter que nos engolir”.
    Me entristece saber que mais da metade da população é conivente com esse ato. Tamanha lavagem cerebral, que não há tréguas, aquele que se posicionar contra o aborto automaticamente defende a opressão de mulher.
    É cada vez mais difícil aguentar essa sociedade liberal decadente, que ruma ao colapso.
    Forte abraço.

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  9. Felipe:

    Excelente texto! E, perdoe-me a piada de péssimo gosto (mas que pressinto ser inevitável)… Se eu fosse uma mulher grávida, teria “abortado” de tanto rir da expressão “o nível de sociopatia dessas afirmações beira o delírio”! (Ou talvez eu tivesse dado a luz. quem sabe?)

    Não obstante, tua observação foi brilhante, mas vê, de fato, a chave da questão é precisamente essa. É um delírio, uma psicopatia, no seu sentido clínico mais estrito (cf. A. Lobaczewski, J. J. Ray, G. Watson, O. Carvalho, e inúmeros outros).

    Discorro: o aborto é, fundamentalmente, e como muito bem explicado em alguns dos comentários presentes nesta página, um crime, a priori, de ordem antropológica — é um infanticídio, afinal –, e, somente a posteriori, de ordem moral.

    Em outras palavras, não é necessário nenhum tipo de bússola moral para se compreender a gravidade do fenômeno do aborto: basta a observação atenta do próprio ato em si, de forma imediata e isolada. O descarte de crianças não-nascidas não ultrapassa meramente o limite do obsceno ou do grotesco, do sádico, ou do psicótico (limites estes que são de ordem estética e moral); ultrapassa, antes, o limite da irracionalidade mais absoluta, já que, dada a natureza destrutiva do ato ‘per se’, condena todo o gênero humano, condenação a qual é proporcional justamente à escala do ato mesmo praticado. É um ato proporcionalmente suicida, e acho seguro presumir que o suicídio, de forma geral, é um ato irracional em sua essência.

    Esta é uma conclusão que se tem por tácita durante quase trinta séculos de registro de história escrita; porém, em menos de um século, as coisas pretensamente mudaram.

    A aparente confusão acerca do tema — tema o qual, em absolutamente qualquer sociedade saudável, em qualquer época histórica, não teria sequer necessidade de discussão, caindo, na melhor das hipóteses, no campo do absurdo pleno — denuncia não apenas a degradação moral de toda uma geração, ou talvez duas, mas sobretudo a incapacidade paralisante dessa(s) mesma(s) geração(ões) de se admitir cognitivamente verdades objetivas e naturais, sensíveis, intimamente inquestionáveis, da realidade que nos circunscreve.

    (Essa confusão faz vítimas de caráter legítimo, eu suponho. Isto é: muita gente “de bem” permanece confusa, mergulhada no oceano de lama e excretas que forma a cultura e o conhecimento modernos tal como eles estão hoje, e, ao que se observa, é particularmente difícil sair dessa situação. Sobretudo sem sequelas. Não estou seguro se é produtivo tentar “convencer” tais pessoas do contrário de suas crenças, todavia.)

    Voltando porém ao cerne da questão, esse tipo de discussão demonstra, não entre os que polidamente discordam (da realidade, por disparatado que soe!), mas entre os que discutem e publicam “conhecimento”, uma deficiência cognitiva. (A deficiência moral inexiste porque a moralidade presume uma função cognitiva operante, do que se deduz que, ausente uma cognição eficaz, a própria moralidade inexiste. Não é possível sofrer uma doença num órgão ausente.) Indivíduos com essa deficiência antes devem ser tratados pelo que são — deficientes –, e não pelo que pretendem ser, uma vez que, seguramente, não se considera em matéria e substância o que um louco diz, se considera apenas o fato de que o mesmo é louco.

    Se acompanhaste até aqui, fica claro que seguramente não podemos discordar das recomendações de diversos dos intelectuais contemporâneos mentalmente saudáveis. Não devemos debater _a pretensa matéria_ sendo posta em pauta, pois que, como loucos que são, estão aquém (ou além) de quaisquer conexões com quaisquer substratos da realidade que nos cerca, realidade que, concordamos, é objetiva o bastante para expôr a ridículo inúmeras das “teorias de pau” da modernidade e da chamada pós-modernidade. Loucos não discutem substância; loucos debatem-se em seu próprio chiqueiro de divagações tempestuosas. Devemos, entretanto, e ao contrário, meramente expôr a loucura, de forma enfática e expressa, demovendo-os do posto de intelectuais assumido, justamente, pela ausência de quem os demovesse.

    “Defensores do aborto”, por assim dizer, assim como defensores de tantas outras filosofias de pau que nos rodeiam, são *deficientes mentais*. Não todos, devo dizer, por justiça: os que, ignorantes porém sinceros, imersos no estrume racionalista que desde já cheira na atmosfera moderna tal como um amplo esgoto aberto; estes não são loucos, ainda que se assemelhem, e, penso, devam ser ajudados por um ou por outro expediente.

    Nestas horas, lembremo-nos do célebre trilema de Žižek, tão aplicável à situação discutida quanto é em seu contexto original.

    Fique com Deus.

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      • Felipe.
        Meu comentário para o Anonimo foi publicado mas agora sumiu!
        Poderia por gentileza enviá-lo para o meu email para que não tenha que digitar tudo novamente.
        Prometo que não tentarei republicá-lo no seu blog.
        Grande abraço.

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    • Anônimo.
      Seu comentário,( discordando do Felipe quanto ao termo “irreparável ), merecia alguns termos em latim data vênia.
      Gostaria que me esclarecesse se “defensores do aborto” são considerados iguais a “defensores da descriminalização”.
      Seu texto usa a estratégia comunista para desqualificar o debate a priori. Trata por loucos, deficientes mentais, etc, quem se propõe a debater honestamente, assim como os comuna tratam por retrógrados, burguêses,psicopatas, etc,quem discorda de suas ideologias.
      Me pareceu que o texto original da Rita trata principalmente do problema da criminalização e descriminalização do aborto.
      Você, com toda desenvoltura e estilo, desviou o assunto para a questão de ser a favor ou contra o aborto.
      Me parece então que você considera o aborto a mesma coisa que a criminalização do aborto.
      Infelizmente, como deficiente e louco que sou, não merecerei ser levado em consideração no debate.
      Viva a ditadura da opinião!

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  10. Um dos melhores artigos que já li sobre o assunto. Você devia estar escrevendo no Estadão e é um absurdo jornais de tanto alcance e tradição deixarem que se divulguem mentiras e apoio a crimes.

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