A grande ruína, 26 anos atrás

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Günter Schabowski e Harald Jäger não são nomes particularmente conhecidos no Brasil. Poucas pessoas devem saber que Günter era um oficial do Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED, Sozialistische Einheitspartei Deutschlands), o partido que governava (ou melhor, dominava) a Alemanha Oriental, e que Harald era tenente coronel da Stasi, a polícia secreta daquele país. No entanto, o dia 9 de novembro é uma excelente ocasião para conhecer mais sobre Schabowski e Jäger. O motivo? A queda do Muro de Berlim.

A Alemanha Oriental foi um dos inúmeros países socialistas que estiveram sob o controle da União Soviética. A liderança política do país era uma das mais fiéis a Moscou, e seu governo era conhecido pela maneira implacável com a qual monitorava os aspectos mais triviais da vida de seus cidadãos. A Stasi (diminutivo de Ministerium für Staatssicherheit, Ministério para a Segurança do Estado), principal órgão de repressão interna da Alemanha Oriental, entrou para a história como uma das polícias políticas mais eficientes e cruéis de qualquer regime totalitário. Seu chefe, o ministro Erich Mielke, mantinha um rígido controle sobre os membros da organização, que deveriam ser a longa manus do partido, a espada e o escudo do socialismo na Alemanha Oriental.

Todo agente da Stasi, em seu ingresso, prestava um solene juramento em que prometia, dentre outras coisas, “lutar ao lado dos órgãos de segurança de Estado de todos os países socialistas contra os inimigos do Socialismo”. Quem desobedecesse ao juramento e a rígida disciplina da Stasi estava sujeito às penas mais diversas – expulsão, proibição de trabalhar em qualquer outra área, e, nos casos mais graves, sentença de morte após julgamento por um tribunal militar secreto. As penas de morte preferidas pela Stasi, e que foram aplicadas a cerca de duzentos ex-agentes, eram um tiro na nuca ou decapitação. Ao entrar na Stasi, só havia dois caminhos de saída: a aposentadoria, ou a morte. Em 1964, Harald Jäger, que fora voluntário da polícia de fronteira nos três anos anteriores, prestou tal juramento e integrou as fileiras da Stasi.

Outro aspecto distópico da vida na Alemanha Oriental era o controle da informação. O consumo de jornais e revistas de países não-comunistas era proibido, e as informações que circulavam no país tinham como fonte quase exclusivamente os órgãos oficiais de imprensa. Além de selecionar (e, quando era o caso, fabricar) as notícias que deveriam informar o povo alemão oriental, esses órgãos de imprensa tinham por objetivo aumentar o prestígio de oficiais do SED junto à população, forjando sua legitimidade como dirigentes políticos. Destacava-se, nesse ambiente altamente controlado, o jornal Neues Deutschland (“Nova Alemanha”), órgão de imprensa oficial do SED. O jornalista Günter Schabowski, formado pela Universidade Karl Marx, em Leipzig, tornou-se editor-chefe do Neues Deutschland em 1978. Schabowski havia iniciado sua carreira jornalística como editor da revista sindical Tribüne, e, nos anos 1960, havia se especializado na universidade do Partido Comunista da União Soviética, em Moscou. Em 1985, deixou o Neues Deutschland, tornou-se presidente do diretório de Berlim Oriental do SED e passou a integrar o Politbüro do partido, o órgão máximo de deliberação do SED. Em outubro de 1989, com a substituição de Erich Honecker, Secretário-Geral do Comitê Central do SED e Presidente do Conselho de Estado da República Democrática da Alemanha, por Egon Krenz, Schabowski tornou-se o porta-voz extraoficial do governo e do partido.

Não consta na história que Schabowski e Jäger tenham se conhecido pessoalmente. Suas funções eram bastante distintas, afinal de contas, e a estrutura estamental da sociedade alemã oriental (como sói acontecer em países socialistas) delimitava espaços bem definidos que impediam o contato entre as castas. Era papel de Schabowski auxiliar na condução da política da Alemanha Oriental; era papel de Jäger garantir que nenhuma ameaça fosse interposta a essa condução. No entanto, no dia 9 de novembro de 1989, os destinos de ambos se cruzaram de modo inesperado.

Desde a construção do Muro de Berlim, em 1961, o controle de tráfego nas fronteiras da Alemanha Oriental era desumanamente implacável. O objetivo, entretanto, não era impedir que as pessoas entrassem no país, mas impedir que elas saíssem. Milhares de pessoas tentavam cruzar a fronteira todos os dias, e são muitas as imagens, fotos e vídeos, que mostram o desespero daqueles que buscavam escapar daquele “Paraíso socialista”. Não foram poucos os que perderam a vida na tentativa de fugir do próprio país. Nos anos 1980, essa crise migratória alcançou proporções não vistas, de modo que o SED chegou a uma conclusão: ou se aliviava a pressão do controle, ou haveria uma rebelião popular sem precedentes.

Coletivas de imprensa aconteciam diariamente. No dia 9 de novembro de 1989, pouco antes da coletiva do dia, Schabowski recebeu uma nota oficial que dizia que os alemães orientais teriam permissão para cruzar a fronteira. A nota não trazia maiores detalhes. Ao ler a nota durante a coletiva de imprensa, Schabowski foi perguntado quando aquela diretiva entraria em vigor, ao que respondeu: “Imediatamente.” Trechos da coletiva foram transmitidos pelos noticiários televisivos noturnos – que podiam ser assistidos também do lado ocidental –, e o que deveria ser apenas um mal-entendido se transformou num evento histórico.

A informação de liberação da passagem pela fronteira levou centenas de milhares de alemães orientais e ocidentais para os postos de controle ao longo do Muro de Berlim. Enquanto os alemães do lado oriental exigiam passagem, os do lado ocidental estimulavam seus compatriotas a atravessarem a fronteira. Redes de televisão passaram a noticiar, ao vivo, a grande aglomeração que se formava nos postos de controle. O efetivo policial responsável por resguardar os postos de controle tentava ganhar tempo até compreender o que estava acontecendo, mas ondas e mais ondas de alemães orientais afluíam para a fronteira. Às 23:30, o então tenente-coronel Harald Jäger, chefe do posto de controle da Bornholmer Straße, decidiu desobedecer as ordens que recebeu e abriu os portões da fronteira, dando passagem a todos. Assim, o Muro de Berlim começou a cair.

Alemães orientais cruzando o posto de controle da Bornholmer Straße logo após sua abertura.

Alemães orientais cruzando o posto de controle da Bornholmer Straße logo após sua abertura.

Günter Schabowski faleceu há poucos dias, em 1º de novembro. Harald Jäger ainda está vivo – ao contrário do que asseveravam as regras impiedosas da Stasi, não foi julgado por um tribunal secreto, nem sentenciado à morte por decapitação. Esses são dois dentre muitos personagens que se destacam na história do totalitarismo (e da resistência a ele) na Alemanha Oriental.

Neste aniversário de 26 anos da queda do Muro de Berlim, é preciso lembrar que o espírito desse totalitarismo não morreu. Ele continua bastante vivo, e podemos encontrá-lo com facilidade aqui mesmo, no Brasil, encampado pelo partido que há 13 anos corrói a vida política, econômica e social do País. O que a queda do Muro de Berlim nos ensina é que, por sua essência profundamente destrutiva e inumana, o socialismo está fadado a cair. Esperemos que, aqui, ele caia depressa, antes que nos arraste mais para o abismo.

Minha memorabilia: fragmentos do Muro de Berlim retirados do posto de controle do Portal de Brandemburgo, conhecido como Charlie Checkpoint.

Minha memorabilia: fragmentos do Muro de Berlim retirados do posto de controle do Portal de Brandemburgo, conhecido como Charlie Checkpoint.

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Um comentário sobre “A grande ruína, 26 anos atrás

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