Multiculturalismo, atalho para a barbárie

french shooting

Sexta-feira 13 tem a fama de ser um dia de azar. As explicações do porquê são as mais variadas. Os supersticiosos redobram sua atenção, cobrem-se de cuidados, tudo para evitar serem atingidos pela má sorte do dia. Ontem foi uma sexta-feira 13. E o que vimos acontecer em Paris não tem nada a ver com azar, com má sorte, com qualquer confluência não-ordenada de situações ruins que culminam em tragédia. Muito pelo contrário.

A contagem oficial das autoridades francesas dá conta que 153 foram assassinadas. Mais de duas centenas de pessoas ficaram feridas, a metade em estado grave. Oito terroristas morreram, sete deles em atentados suicidas. Somente na casa de shows Bataclan, mais de 100 pessoas foram executadas sob gritos de “Allah’u Akbar!” – “Deus é Maior”, em árabe. Acontecia, no Stade de France, um jogo amistoso entre as seleções nacionais de futebol da França e da Alemanha. A democrata cristã Angela Merkel, chanceler alemã, estava presente. O socialista François Hollande, presidente francês, também. Foram evacuados. Mais tarde, Hollande falou em rede nacional, confirmou os atentados e anunciou três medidas: fechamento imediato das fronteiras, declaração de estado de emergência e imposição de um toque de recolher (o que não era feito desde a Segunda Guerra Mundial). Hollande também determinou a convocação de um gabinete de crise para compreender o que realmente aconteceu – quem foram os agressores, o que os motivou e como evitar que coisas semelhantes aconteçam.

A França, fille aînée de l’Église, sabe quem foram os agressores, o que os motivou e como combatê-los. E ela sabe disso desde o ano 732, quando Charles Martel derrotou as forças islâmicas lideradas pelo abássida Abd Ar-Rahman Al Ghafiqi na Batalha de Tours. Há séculos, todo o Ocidente sabe que o objetivo central do Islamismo é submeter o mundo inteiro, transformando a Casa da Guerra (dar-al Harb) na Casa do Islã (dar-al Islam); que a Sharīʿah, a expressão imutável dos mandamentos de Allah para o homem, determina a execução da guerra contra os infiéis (jihād); que a jihād é uma obrigação individual de cada muçulmano (fardh al-’ayn), uma vez que emana da vontade de Allah. A compreensão dessas verdades está presente na civilização ocidental desde São João Damasceno – em cuja obra “De Haeresibus”, no capítulo 101, analisa o Islã como uma heresia cristã – até o acadêmico Bernard Lewis. Em seu livro “The Political Language of Islam”, Lewis esclarece o que é a jihād (tradução livre, grifos meus):

De acordo com o ensinamento islâmico, a jihād é um dos mandamentos básicos da fé, uma obrigação imposta a todos os muçulmanos por Deus, através da revelação. Em uma guerra ofensiva, é uma obrigação da comunidade como um todo (farḍ kifāya); em uma guerra defensiva, torna-se obrigação pessoal de todo homem muçulmano adulto (farḍ ‘ayn). […] A base da obrigação da jihād é a universalidade da revelação islâmica. A palavra e a mensagem de Deus são destinadas a todos os homens; é dever daqueles que as aceitaram se esforçar (jāhada) incessantemente para converter ou, ao menos, subjugar aqueles que não aceitaram. Essa obrigação não tem limite no tempo ou no espaço. Ela deve continuar até que todo o mundo ou tenha aceitado a fé islâmica, ou tenha se submetido ao poder do Estado islâmico. (Bernard Lewis, “The Political Language of Islam”. London: The University of Chicago Press, 1988, p. 73.)

Se há séculos sabemos os meandros do Islamismo, como é possível que a França – e, em última instância, o Ocidente – tenha permitido que tamanha atrocidade, cometida por fundamentalistas islâmicos, pudesse acontecer dentro de sua própria casa? A resposta pode ser resumida em uma palavra: multiculturalismo.

Provavelmente, você nunca ouviu falar de Nur ad-Dīn Abd ar-Rahmān Jami. Poeta, teólogo e místico sufi, Jami viveu no século XV. Dentre suas histórias, há uma alegoria que explica perfeitamente a armadilha imposta pelo multiculturalismo. Essa alegoria ficou conhecida como “A Tartaruga e o Escorpião” (tradução livre):

Uma tartaruga nadava alegremente em um rio quando um escorpião que estava na margem chamou-a.

Por ser um péssimo nadador, o escorpião pediu à tartaruga que o carregasse em suas costas até a outra margem do rio. “Você está louco?”, exclamou a tartaruga. “Você irá me ferroar enquanto estiver nadando e eu me afogarei.”

“Querida tartaruga”, riu o escorpião, “se eu a ferroasse, você se afogaria e eu afundaria contigo, e me afogaria também. Onde está a lógica nisso?”

A tartaruga pensou bem, e viu lógica na explicação do escorpião. “Você está certo!”, disse a tartaruga. “Suba!” O escorpião subiu no casco da tartaruga e, quando estavam a meio caminho da outra margem, deu uma poderosa ferroada na tartaruga. Enquanto ambos afundavam nas águas do rio, a tartaruga disse, resignada:

“Você disse que não havia lógica em você me ferroar. Por que, então, você fez isso?”

“Isso não teve nada a ver com lógica”, disse o escorpião, que se afogava. “Essa é minha natureza.”

A natureza do Islamismo é a subjugação total do mundo inteiro sob um Estado teocrático, seja pela conversão, seja pela guerra. É isso que se depreende dos textos islâmicos clássicos – a jihād como uma espécie de luta ascética foi defendida por poucos teólogos xiitas no começo do Islã, e ganhou alguma força apenas em meados do século XIX. É essa a natureza filosófica, política, social e teológica do Estado Islâmico, que assumiu a autoria do massacre em Paris. É essa a natureza de todos os grupos islâmicos, grandes ou pequenos, que têm se aproveitado da doutrina multiculturalista presente na Europa para impor a Sharīʿah.

A França deu exemplos estupendos de firmeza, sobriedade, prudência e força ao longo de sua história – exemplos que não se restringiram apenas ao próprio país, mas que iluminaram toda a Europa. Só há saída real para essa chaga aberta no seio da civilização ocidental na retomada desses exemplos. Nomes como Charles Martel, Hugues de Payens, Godefroy de Bouillon, São Bernardo de Claraval e Rei São Luís IX precisam ser revisitados, não como longínquas referências de uma superada história de obscurantismo cristão, mas como exemplos vivos para nossa idade das trevas.

Nesse momento de dor e consternação, tenhamos em mente as palavras de Dostoiévski: “O Ocidente perdeu Cristo; eis a razão pela qual o Ocidente está para morrer – somente por esta razão!”

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8 comentários sobre “Multiculturalismo, atalho para a barbárie

  1. Muito bom artigo, Felipe Melo, mas fiquei com uma duvida:
    Se o multiculturalismo é um ato suicida para o ocidente, então porque ele é tão “imposto”, junto com a onda do ” politicamente correto”? Porque mais se fala na xenofobia q esse atentado vai causar do quem no combate ao terrorismo?

    Obrigado desde já

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    • Gabriel,

      Obrigado por sua excelente pergunta.

      Os discursos do multiculturalismo e do politicamente correto basicamente se encaixam num esquema maior: a destruição da civilização ocidental e sua substituição por uma nova ordem. O modo revolucionário de agir e pensar tem isso por objetivo último.

      É por isso que, num caso como esse, fala-se mais de como grupos de “extrema-direita” vão se fortalecer, como a xenofobia e o nacionalismo vão aumentar, etc. Quem adota essa linha, defende, ainda que não saiba, um projeto de poder que quer destruir toda a nossa civilização e substituí-la por algo pretensamente mais humano, justo e igualitário. Ao se levantar essa bandeira, mesmo que implicitamente, é como se se criasse em torno dos multiculturalistas e dos patrulheiros do politicamente correto uma aura mágica de superioridade moral, o que facilita com que essas ideologias sejam impostas.

      Espero ter conseguido tirar sua dúvida. Um abraço!

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  2. Olá, Felipe!

    Belo post (como todos os outros, aliás)!

    Tenho uma questão:

    Admitindo que a França é um país com uma quantidade razoável de muçulmanos e que, segundo dizes, o Islamismo é uma religião essencialmente violenta: qual a forma de lidar com essa situação?

    Impor, através da força, os valores ocidentais? Expulsar os muçulmanos da França? Bueno, acredito que nenhuma destas duas refletiriam os valores ocidentais, os valores que nós prezamos.

    É uma questão de difícil resolução para um católico como eu… Temos de acolher o próximo, agir com caridade para com todos (inclusive os que professam outras religiões ou nenhuma); mas esse mesmo ato de caridade e tolerância pode se voltar contra nós e nos destruir.

    Rapaaiii!!! É uma situação muito complicada…

    Grande abraço e que Deus te abençoe,

    Jonas

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  3. Nossa Felipe!!!
    Depois de ler sua publicação fiquei muito curiosa em conhecer as obras desses heróis no nosso passado: Charles Martel, Hugues de Payens Godefroy de Bouillon, São Bernardo de Claraval e o Rei São Luís IX!!!
    Pena que estou terminando minha faculdade de direito e não vou ter tempo de ler nada deles….rs!
    Mas por caridade, tem a possibilidade do Sr. enviar essa sua sugestão para alguma autoridade de Paris?
    Acredito que eles estarão mais abertos às sugestões para enfrentar essa crise depois desse massacre!
    Como nosso querido Papa Francisco já falou, participar da política é um ato de caridade!!!
    Abraços e fique com Deus!!!

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    • Jeane,

      A exceção de São Bernardo de Claraval, nenhum dos homens que citei escreveram nada. Eles foram líderes políticos e militares que não se esqueceram da natureza do Islamismo e souberam combater a ameaça islamista quando ela ameaçava a integridade da França e da própria civilização.

      Duvido muito que qualquer autoridade francesa levaria a sério minha sugestão. Há muito que a França tem esquecido de sua história e de sua fé.

      Abraços! Fique com Deus você também.

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  4. Caro Felipe,
    Parabéns por mais um colírio para o nossos olhos, fantástico texto.
    Infelizmente o que vemos é uma guerra de ego, sim de egos..
    Se pegarmos textos budistas, cristãos e muçulmanos, percebemos que mudam as palavras e o conteúdo é o mesmo, porém o ego é que cada uma quer que seu Deus seja maior que a do outro.
    Peço licença para colocar a minha singela opinião sobre um fato, infelizmente a palavra “guerra” que está num dos fundamentos islâmicos é muito mal interpretada e é levada ao pé da letra, pois a época que viveu Maomé o mundo era uma guerra total de tribos. Não seria a guerra citada pelos fundamento a mesma guerra que temos na Bíblia do bem contra o mal? No Budismo entre Buda e os demonios? Entre o materialismo e o Espiritualismo ( Caim e Abel) ?
    O Islamismo é uma fé muito bonita, como a Cristã, a Budista, a Xintoista, a Kadercista, entre tantas outras, porém como em todas temos os extremos e ai que acredito que é o prejudicial, todo fanatismo e/ou radicalismo é prejudicial, nisso temos na Yoga, e nos chineses uma Maravilhosa resolução que é o Ying e o Yang, o equilíbrio, e na vida temos que ter o equilíbrio entre o certo e o errado para não sermos extremistas de nós mesmos. Como escreveu brilhantemente Machado de Assis em o Alienista)
    Acredito que isso equivale àquelas questões de raciocínio lógico de concurso onde temos um enunciado:
    Nem todo seguidor do islamismo é um terrorista, porém os terroristas dos dias de hoje são islamistas (Não nos esqueçamos do ETA, IRA, entre outros).
    Fico com muito medo de generalizarmos os muçulmanos, e não cometamos o mesmo erro de Hitler que quis acabar com uma raça em prol da “pureza” ariana. (Sabemos que não foi só isso, mas os alemães acreditaram lutaram e morreram por isso).
    Abraço!
    Fique com Deus!!!

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  5. Muito bom o texto, Felipe. É impressionante ver o esforço que os meios de comunicação começaram a empreender já no dia da tragédia para convencer o público que o grande perigo agora é o crescimento do discurso da ‘extrema direita’ na Europa.

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