Ainda, a ruína da Europa – e uma resposta conveniente

Aleksandr Averyanov, The Defense of Smolensk on August 5th, 1812.

Aleksandr Averyanov, The Defense of Smolensk on August 5th, 1812.

Há um provérbio árabe que diz: “Um tolo joga uma pedra em um poço, e cem sábios não conseguem movê-la”. Freqüentemente, é muito mais difícil desfazer uma informação equivocada do que simplesmente passá-la adiante. No entanto, faz-se necessário responder a um punhado de equívocos com uma procissão de argumentos bem fundados. Então, vamos lá.

Em meu último artigo, recebi um comentário que diz o seguinte:

A Europa sempre viveu em guerra. Basta uma pesquisa simples para ver a cronologia das guerras naquele continente, sobretudo as guerras de religião dentro do cristianismo. Protestantes de diversas seitas entre si ou entre católicos e protestantes, ou você se esqueceu da noite de São Bartolomeu. No começo do século XX os países europeus se destruíram em duas guerras mundiais. Na verdade, vendo em perspectiva de longa duração, o século XX foi o período de paz mais duradoura. Uma pessoa vir a público na internet e usar a tragédia da França e o terrorismo para fazer proselitismo religioso é irresponsável e muito baixo. É falta de caráter intelectual. Isto não é coisa de cristão e uma aposta na ignorância e no obscurantismo.

Quero acreditar que quem escreveu o comentário teve o bom senso turvado pela paixão do momento. Afinal, acusar gratuitamente alguém de ser irresponsável, muito baixo e intelectualmente mau caráter não é o tipo de coisa que se espera de gente que esteja na plena posse de suas faculdades mentais – o que pode acontecer em um momento de destempero, por exemplo. Após essa observação, podemos às alegações do comentário. Por uma questão de método, vou dividir o comentário em pedaços e analisá-los um por um.

1) “A Europa sempre viveu em guerra.”

Essa é uma meia verdade. Sim, é fato que o continente europeu jamais se viu totalmente livre de conflitos armados. No entanto, esses conflitos eram freqüentemente isolados, resumindo-se a questões de disputa territorial entre condados, ducados e principados. Conflitos de larga escala na Europa deixaram de ser exceção e passaram a ser regra a partir da Revolução Francesa, especialmente com a assunção de Napoleão Bonaparte ao poder. A racionalização dos métodos e táticas de batalha – algo visto sobretudo depois de “Da Guerra”, a famosa obra do estrategista Carl von Clausewitz – e a utilização de armas de maior poder de destruição proporcionaram a escalada dos morticínios não só na Europa, mas em outros lugares.

2) “Basta uma pesquisa simples para ver a cronologia das guerras naquele continente, sobretudo as guerras de religião dentro do cristianismo. Protestantes de diversas seitas entre si ou entre católicos e protestantes, ou você se esqueceu da noite de São Bartolomeu.”

A Noite de São Bartolomeu foi, de fato, um episódio triste na história francesa. Para quem não sabe, a Noite de São Bartolomeu foi um pogrom cometido em Paris, bem como no interior, contra os huguenotes por católicos no contexto das guerras de religião da França no século XVI. A taxa de mortos varia entre 5 mil e 30 mil, sendo que a maioria dos historiadores estima que a quantidade de mortos tenha sido mais próxima de 10 mil.

No entanto, esse episódio não pode ser, nem de longe, tomado como um exemplo de guerra na Europa. Aliás, ao contrário do que o comentário implica – e do que quase todo mundo crê –, a religião nunca foi o principal motivo de conflitos armados. A monumental “Encyclopaedia of Wars”, trabalho de pesquisa coordenado pelos historiadores Charles Phillips e Alan Axelrod, estima que 7% dos conflitos armados no mundo tenham tido a religião por motivo. Querer culpar a religião pela guerra é uma daquelas mentiras saborosas ao palato pós-moderno.

3) “No começo do século XX os países europeus se destruíram em duas guerras mundiais. Na verdade, vendo em perspectiva de longa duração, o século XX foi o período de paz mais duradoura.”

Essa informação é equivocada. O século XX, ao contrário, foi o período em que mais se matou na história humana. A obra “The Great Big Book of Horrible Things”, de Matthew White, lista que, nos 100 piores conflitos e massacres da história humana – contabilizados desde o século V a.C. –, morreram aproximadamente 500 milhões de pessoas; deste total, 200 milhões morreram desde 1900 até hoje. Tomando essa contagem por base, chegamos à conclusão que 40% das mortes provocadas em guerras, perseguições e massacres em toda a história humana ocorreram apenas nos últimos 115 anos.

Além disso, outro fator que não se pode desconsiderar é que o século XX viu o surgimento do extermínio sistemático de populações inteiras como uma política oficial de Estado. Os gulags da União Soviética, o Holodomor da Ucrânia, os campos de concentração nazistas, as execuções sumárias e as perseguições políticas da China comunista, enfim, há inúmeros exemplos disso.

4) “Uma pessoa vir a público na internet e usar a tragédia da França e o terrorismo para fazer proselitismo religioso é irresponsável e muito baixo. É falta de caráter intelectual. Isto não é coisa de cristão e uma aposta na ignorância e no obscurantismo.”

O processo de descristianização da Europa, que foi acentuado a partir da Revolução Francesa, curiosamente coincide com o aumento de alcance, ocorrência e mortalidade das guerras. Não se trata de uma mera coincidência: há um nexo causal entre as duas coisas. Esclarecer a existência desse nexo está longe de ser uma aposta na ignorância e no obscurantismo – aliás, termos bastante recorrentes nos discursos anticristãos desde o Iluminismo Francês até os dias de hoje –, mas o exercício do direito (mais além, do dever) de todo cristão em dizer a verdade.

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3 comentários sobre “Ainda, a ruína da Europa – e uma resposta conveniente

  1. Esse sujeito que postou essa falácia tem que procurar ler mais. Sugiro começar pelos livros de Theodore Dalrymple.
    E Felipe, cristão é o que você é; verdade é o que um cristão deve dizer e buscar.
    Você cumpriu além disso o seu papel de cidadão e se ateve aos fatos, não apenas a opiniões.
    Parabéns!

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  2. Felipe:
    Bem respondido, mas fez mal em “dar o braço a torcer” sobre a tão falada quão desconhecida “Noite de S. Bartolomeu”. Não foram “os católicos” que mataram “os huguenotes” num “episódio triste” da história francesa. Foi a rainha-mãe Maria de Médicis (aliás uma mulher péssima, que mal merece o nome de católica) que ordenou o massacre, para ocultar sua participação na tentativa de homicídio do comandante protestante Coligny, figura chave na sublevação calvinista, que ameaçava derrubar a monarquia ou dividir a França. Os huguenotes pretendiam instaurar uma ditadura puritana, nos moldes da implantada por Calvino em Genebra, e para tanto não hesitavam em aliar-se a governos protestantes anti-franceses, na Inglaterra e Alemanha, cedendo-lhes território de seu próprio país, admitindo exércitos de mercenários estrangeiros e atraiçoando o seu rei. A isto é que se chamou “guerra de religião”, e o massacre de S. Bartolomeu foi um episódio dessa guerra.

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