Como não defender a Igreja

Jacopo Alessandro Calvi, "Catarina exortando Gregório XI a voltar para Roma", séc. XVIII.

Jacopo Alessandro Calvi, “Catarina exortando Gregório XI a voltar para Roma”, séc. XVIII.

Sou católico. Não escondo a minha fé, nem a exibo infantilmente. Converti-me há quatro anos – apesar de ter sido batizado na Igreja com 1 ano, recebi educação religiosa espírita. Desde então, busco viver seriamente minha fé, sem alarde, com fidelidade. Esse esforço não turva minha capacidade de enxergar as coisas como são, muito pelo contrário: quando se vê algo censurável no seio dos católicos, é preciso que se diga qual é o erro e condená-lo, preservando aquele que o cometeu.

Existe, na Arquidiocese de Brasília, a Comissão Justiça e Paz (CJP) de Brasília, ligada à Comissão Brasileira Justiça e Paz, um dos órgãos subsidiários autônomos da CNBB. Fazem parte da CJP socialistas históricos, como o professor José Geraldo de Sousa Júnior, ex-reitor da Universidade de Brasília e defensor do chamado “Direito Achado na Rua”, de Roberto Lyra Filho. Desde 2014, a CJP tem conduzido o projeto “Conversas de Justiça e Paz”, palestras que teriam por tema assuntos relacionados a direitos humanos e cidadania. O que se viram em concreto ao longo desses dois anos foram, na maioria das vezes, palestras de conteúdo doutrinal da Teologia da Libertação, e que divergiram bastantes vezes da doutrina social e do Magistério da Igreja.

Na última segunda-feira, dia 7 de dezembro, no âmbito desse projeto da CJP, ocorreu a palestra “A Justiça como Dimensão da Misericórdia”, ministrada por D. Sérgio da Rocha, Arcebispo de Brasília e Presidente da CNBB. O tema girou em torno da proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia pelo Papa Francisco, um ano santo a se iniciar na Solenidade da Imaculada Conceição (8 de dezembro) deste ano e ser encerrado na Solenidade de Cristo Rei (20 de novembro) de 2016. Há pouco tempo, D. Sérgio passou por cirurgia de emergência para retirada de cálculo renal, e ainda se encontra em recuperação. Ainda assim, encerrou as palestras de 2015 com uma exposição calcada nas Sagradas Escrituras, no Magistério e na doutrina social da Igreja.

Ao fim da palestra, o mediador, prof. José Geraldo (já citado), decidiu que não haveria espaço para perguntas. Um dos motivos, certamente, foi a presença de pessoas que queriam demonstrar sua insatisfação pela recente nota da Comissão Brasileira Justiça e Paz – que se posicionou contra o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff questionando a idoneidade do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e suas motivações. Também havia a intenção de pressionar a CNBB a se posicionar a favor do impeachment de Dilma. O resultado foi desastroso.

A falta de respeito, bom-senso e caridade demonstrada por algumas das pessoas que se manifestaram na ocasião foi chocante. Mais do que isso, foi um escândalo – entendido aqui como um ato público pecaminoso que leva outras a pecar –, e Cristo é taxativo sobre isso: “É impossível que não haja escândalos, mas ai daquele por quem eles vêm! Melhor lhe seria que se lhe atasse em volta do pescoço uma pedra de moinho e que fosse lançado ao mar, do que levar para o mal a um só destes pequeninos.” (Lc 17, 1-2) A pretexto de defender a Igreja contra a influência socialista, as pessoas que promoveram esse ato vexatório conseguiram duas coisas: 1) fazer com que os socialistas dentro das estruturas da CNBB se fizessem de vítimas; e 2) atacar um sucessor dos Apóstolos, e que ainda se encontrava fragilizado fisicamente.

O silêncio diante dos erros, mesmo os da hierarquia da Igreja, não é solução para nada. O próprio Código de Direito Canônico estabelece que “[o]s fiéis, segundo a ciência, a competência e a proeminência de que desfrutam, têm o direito e mesmo por vezes o dever, de manifestar aos sagrados Pastores a sua opinião acerca das coisas atinentes ao bem da Igreja, e de a exporem aos restantes fiéis, salva a integridade da fé e dos costumes, a reverência devida aos Pastores, e tendo em conta a utilidade comum e a dignidade das pessoas” (Cân. 212, § 3º). O que aconteceu foi exatamente o contrário do que estabelece o Código de Direito Canônico – e, primeiramente, o bom senso.

Situações como essa não ajudam em nada a Igreja, mas só servem de escândalo e de oportunidade para que os inimigos da fé, dentro e fora do aprisco, saiam fortalecidos. A história da Igreja o demonstra de maneira inequívoca. Situações muito, muito piores aconteceram nesses 2 mil anos de trajetória terrena, e nenhuma delas foi capaz de destruir a Igreja. A cada crise, a cada escândalo, todo católico deve ter em mente as palavras de Cristo a São Pedro: “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18). Portanto, a primeira coisa a se fazer é esta: rezar, rezar muito, rezar com ardor, pedindo a Nosso Senhor que conserve o Papa, os bispos, o clero, os religiosos e os leigos na sã doutrina.

Já estamos no Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Aproveitemos esse tempo forte para pedir perdão por nossos pecados, reconciliarmo-nos com Deus e procurar viver uma vida santa, com justiça e misericórdia, verdade e caridade.

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10 comentários sobre “Como não defender a Igreja

    • Pelo contrário, Jomar. A CNBB deve ser confrontada, sim. Mas há formas adequadas de se fazer isso. Ainda que não seja uma instância oficial da Igreja Católica como um dicastério, por exemplo, a CNBB é composta pelos bispos, que são sucessores dos Apóstolos. Fazer barraco e desrespeitar um bispo não é nem lícito, nem proveitoso, muito menos eficaz.

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  1. Felipe Melo.
    Seus textos são muito bons e sua capacidade intelectual é irrecusável. Já gostava muito do seu blog antes e agora então sabendo que você desfruta, como eu, da fé católica, com redobrado prazer virei aqui mais vezes ler seus artigos. Só lamento que na hora de elogiar, em regra, o ser humano seja parcimonioso, mas na hora de criticar…Misericórdia: na primeira vez que faço um comentário aqui é logo para fazer uma crítica. Pois bem. A questão é: você não acha que exagerou um pouco no título? Não acha que o título dá a entender (de maneira equivocada) que o erro foi da Igreja, quando de fato, na realidade, o erro foi geral de todos os presentes, principalmente do posicionamento equivocado dessas comissões de justiça e paz, que são organismos laicos, com voz democrática dentro da Igreja? Grande abraço.

    Curtido por 1 pessoa

    • Ricardo,

      Acho essa interpretação seria possível somente quando deslocada da leitura do texto. Escolhi um título provocativo, sim, mas não diria que seja exagerado.

      É fato que essas comissões têm causado considerável confusão e escândalo, e é preciso defender a Igreja desses erros. Mas o que aconteceu na Cúria foi um exemplo de como NÃO defender a Igreja, donde vem o título do texto.

      Muito obrigado pelo comentário e forte abraço!

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  2. Se há pontos negativos em apoiar certos grupos socialistas, também é negativo estar ao lado de correntes maçônicas norte-americanas que visam dividir o catolicismo e americanizar cada vez mais o Brasil.Eu estou do lado da Igreja.Política, que cada um decida por si.
    Seu blog é bom, irmão, continue na luta!

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  3. Parabéns, Felipe!

    Foste excelente, principalmente no ponto em que sustentas que estas atitudes são grandes oportunidades para que os inimigos da Igreja saiam fortalecidos. E é isto de fato: muitos católicos não se sentem representados nestas manifestações agressivas; a maioria prefere a sensatez e a argumentação precisa.

    Grande abraço e que o Senhor esteja sempre contigo

    Jonas

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