Trabalhando por uma leitura melhor

Se perguntássemos para qualquer passante na rua qual é a primeira palavra que lhe vem à mente ao ouvir “literatura”, certamente as respostas mais comuns seriam “diversão”, “passatempo”, “chato” e outras variantes. Não é à toa: a experiência (quando há alguma) que a grande maioria das pessoas teve com algum tipo de literatura se resume a crônicas publicadas em jornais e revistas informativas, tirinhas de histórias em quadrinhos, livrinhos de piada ou os ditos clássicos da literatura brasileira – cuja leitura, compulsória em praticamente todas as escolas do País, são relembradas com o mesmo carinho com que se recorda de uma prolongada sessão de tortura.

Boa parte dessa percepção acerca da literatura pode ser encontrada naqueles que são tidos como a elite pensante do Brasil – jornalistas, escritores, cantores, acadêmicos, formadores de opinião, entre outros. E a postura anti-literária que muitos dos membros dessa “elite” ostentam acabam reforçando a idéia de que literatura é, no mínimo, um luxo inútil. Em recente entrevista ao canal GloboNews, o escritor Martim Vasques da Cunha fez muito bem ao lembrar que a cultura livresca em nosso País é, na melhor das hipóteses, um adorno cheio de afetação que se ostenta em jantares íntimos.

Todavia, está ganhando corpo um movimento que busca resgatar a literatura e colocá-la em seu devido lugar. Ele não tem sido levado a cabo por uma organização formal, que dispõe de recursos ordenados para esse fim, mas por indivíduos que, tendo notado a atroz desvalorização que sofre a literatura em nosso meio – sobretudo dentre aqueles que são a “elite” cultural do País –, tem se esforçado para consertar um pouco as coisas. Destacam-se nesse empreendimento o professor Rafael Falcón, o já mencionado escritor Martim Vasques da Cunha, o crítico literário Rodrigo Gurgel, o advogado Francisco Escorsim e o excelente blog Garotas Direitas, para citar alguns nomes. Creio que o mais recente integrante dessa turma é o tradutor Mateus Leme, que acaba de lançar um blog intitulado Biblioteca Básica.

O trabalho levado a cabo pelas pessoas que citei tem como fito o resgate da literatura clássica, a análise do papel e do status da literatura dentro do âmbito mais geral da cultura brasileira, a qualidade da recente produção literária brasileira, o papel fundamental da literatura na formação do imaginário, e por onde começar para se adquirir um gosto autêntico pela literatura. Todas essas áreas de atuação formam, num panorama maior, um mesmo esforço concreto no sentido de salvar a literatura de sua precária situação no contexto cultural brasileiro em que vivemos.

Mesmo assim, uma frase das Escrituras ainda se aplica: “a messe é grande, mas os operários são poucos” (Mt. 9, 37). Para cada pessoa que despertou para a necessidade de cultivar uma vida intelectual, há umas dez mil, pelo menos, que não conseguem extrair sentido de um único parágrafo, muito menos examinar-se para descobrir suas deficiências. O trabalho que há para ser feito é gigantesco e deverá demorar anos, e é inquestionável que a messe precisa de mais operários.

Novas iniciativas que lidem com esse despertar intelectual, tendo por foco de ação os rudimentos da leitura imaginativa, a importância da literatura para a auto-educação e maneiras práticas de cultivar um hábito saudável de leitura, são mais do que bem-vindas. Há muitas pessoas de boa vontade que, tendo reconhecido as deficiências em sua formação educacional e cultural, anseiam por trilhar o caminho da vida intelectual.

Eu mesmo, muito em breve, terei uma boa novidade a contar para essas pessoas.

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