Como fazer história num dia de domingo

Pelo menos 100 mil pessoas protestaram contra o governo em Brasília. Foto: Michel Filho, Jornal "O Globo"

Pelo menos 100 mil pessoas protestaram contra o governo em Brasília. Foto: Michel Filho, Jornal “O Globo”

O dia 13 de março de 2016 já está marcado como a maior mobilização política popular da história brasileira. Mais de 1 milhão de pessoas protestaram contra o governo na orla de Copacabana, e bem mais de 1 milhão e meio marchou pela Avenida Paulista, em São Paulo, exigindo o impeachment da presidente Dilma Rousseff. Em todo o Brasil, aproximadamente 5 milhões de pessoas foram às ruas em 326 cidades de todos os estados.

Para além dos números, o protesto de ontem apresentou algumas coincidências que merecem destaque.

1) No dia 13 de março de 1917, nasceu José Osvaldo de Meira Penna, o maior expoente do liberalismo clássico em terra brasileira. Homem de intelecto afiado e com vasta obra, foi embaixador do Brasil em sete países – Israel, Nigéria, Noruega, Equador, Estados Unidos, França e Polônia. Completou 99 anos de idade.

2) Em 13 de março de 1964, ocorreu o afamado comício da Central do Brasil, liderado pelo então presidente João Goulart e por Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul e cunhado de Jango. Nesse comício, ao qual 150 mil pessoas compareceram, Jango colocou suas garrinhas totalitárias para fora e disse, em alto e bom som, que faria as reformas que pretendia “com ou sem o Congresso”, “na lei ou na marra”. Cinqüenta e dois anos depois, as manifestações populares de 13 de março de 2016 se colocam contra essa pretensão totalitária, que sempre esteve presente, de modo mais ou menos explícito, nos governos de Lula e Dilma.

3) Antes dos eventos de ontem, a maior manifestação popular da história brasileira havia sido o comício das Diretas Já de 16 de abril de 1984, que reunira 1,5 milhão de pessoas no Vale do Anhangabaú, na capital paulista. Naquela época, uma das principais lideranças políticas era justamente Luiz Inácio Lula da Silva, que discursou ao lado de figuras como Tancredo Neves e Ulysses Guimarães. Estava em seus lábios, na ocasião, a defesa da democracia e o restabelecimento da decência no País. Ironicamente, Lula é a encarnação da máxima de Karl Marx registrada em “O 18 Brumário de Luís Bonaparte”: “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”.

Outrora bastião da decência e da ética, Lula e o Partido dos Trabalhadores, uma vez tendo o poder, mostraram o que realmente são: larápios de alto coturno que seqüestraram o Estado para seus interesses privados e dele se valem para a construção um projeto criminoso de poder. E Dilma Rousseff, praticamente um presidente biônico de Lula, é o efeito mais evidente desse projeto. Os que antes diziam defender a democracia hoje constroem uma narrativa em que tentam se converter eles mesmos em instituições políticas invioláveis, inatingíveis.

Coletiva de imprensa convocada por Lula após seu depoimento à Polícia Federal. Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

Coletiva de imprensa convocada por Lula após seu depoimento à Polícia Federal. Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

Não podemos, entretanto, acreditar que as manifestações de 13 de março de 2016 irão, por si mesmas, produzir efeitos. Esse erro seria mortal. É fato que elas mostraram que os brasileiros estão mais dispostos a ir às ruas para defender a si mesmos enquanto nação; que não toleram mais nem a corrupção, nem o covarde oportunismo da classe política, independentemente de partidos; que não vêem e valorizam o trabalho de combate à corrupção, especialmente ao seqüestro do Estado brasileiro pelo Partido dos Trabalhadores, levado a cabo nos últimos anos, especialmente no âmbito da Operação Lava-Jato. Entretanto, as manifestações não decretaram o fim desse governo gangrenado pela corrupção.

O fim deste governo só poderá ser decretado a partir do momento em que Dilma Rousseff deixar a Presidência da República – seja por impeachment, cassação eleitoral ou renúncia – e que, uma vez estabelecidas com clareza as responsabilidades criminais, os políticos implicados na Operação Lava-Jato – Dilma, Lula, Aécio Neves, Eduardo Cunha, e tantos outros – pagarem por seus crimes. Não se poderá alcançar isso apenas com massivos protestos de rua sem que haja, da parte de cada cidadão, uma pressão constante, incansável, sobre as instituições da República. O que fizemos em público, ombreados por nossos concidadãos, devemos fazê-lo todos os dias, sem retroceder, até a vitória final.

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