7 semelhanças marcantes entre Dilma e Collor

Collor e Dilma

Foi no dia 20 de setembro de 1992, um domingo, que o ex-presidente Fernando Collor de Mello proferiu, em cadeia nacional de rádio e televisão, seu último discurso como Presidente da República. Por quase vinte minutos, Collor se explicou com relação às acusações que davam base ao pedido de impeachment que, por fim, seria responsável por sua queda.

Quase 24 anos depois, revisitar o último discurso de Collor tem um bônus adicional: ver como se lhe parecem os discursos proferidos pela presidente Dilma Rousseff nos últimos dias. E a quantidade de semelhanças é mesmo surpreendente.

1) COLLOR DISSE SER VÍTIMA DE PRÉ-JULGAMENTO E INJUSTIÇA. DILMA TAMBÉM.

Na introdução de seu discurso, Collor afirmou:

Permaneci inabalável na determinação de me manter isento, apesar das calúnias, difamações e injustiças contra mim cometidas. […] Responderei ao que creio, sinceramente, sejam profundas injustiças, pré-julgamentos e posturas nitidamente eleitorais, absolutamente inadmissíveis diante de episódios que podem comprometer decisivamente os destinos do País.

Dilma também tem afirmado ser vítima, ela e Lula, de injustiças e pré-julgamentos. Em 3 de março, em cerimônia de troca de ministros – em que, inclusive, José Eduardo Cardozo assumiu o cargo de Advogado-Geral da União –, Dilma afirmou:

Continuaremos defendendo que a presunção de inocência não pode ser substituída pelo pressuposto da culpa, nem tampouco dar lugar à execração pública sem acusação formal e à condenação sem processo por meio de vazamentos ilegais e seletivos.

Em 17 de março, durante a posse de alguns ministros – dentre eles, o ex-presidente Lula –, Dilma afirmou o seguinte:

Para o bem do Brasil, todo esse barulho, que não é a voz rouca das ruas, mas é uma algaravia, advinda da excitação de pré-julgamentos, ela deve acabar, pelo bem do Brasil.

No dia 22 de março, Dilma, durante o vergonhoso comício a seu favor realizado no Palácio do Planalto, declarou:

Condenar alguém por um crime que não praticou é a maior violência que se pode cometer contra qualquer pessoa. É uma injustiça brutal. É uma ilegalidade. Já fui vítima desta injustiça uma vez, durante a ditadura, e lutarei para não ser vítima de novo, em plena democracia.

2) COLLOR DISSE SER VÍTIMA DE ATAQUES ELEITOREIROS. DILMA TAMBÉM.

O ex-presidente Collor condenou o que seriam “posturas nitidamente eleitorais”, dando a entender que seus adversários, inconformados com o resultado das urnas, eram responsáveis pela crise. Em 7 de março deste ano, em discurso, Dilma disse:

Nós, é verdade, sem sombra de dúvidas, é verdade, o Brasil está passando por um momento de dificuldades. Uma parte desse momento de dificuldades é devida também à sistemática crise política que provocam no País aqueles que são inconformados, que perderam as eleições e que não querem… Bom, continuando, aqueles que perdem, perdem as eleições, e não querem e querem antecipar, querem antecipar a eleição de 2018. [SIC]

No discurso de 17 de março, ao justificar Lula em seu ministério, Dilma afirmou:

Nós teremos mais força de superar as armadilhas que jogam em nosso caminho aqueles que, desde a minha reeleição em 2014, não fizeram outra coisa que tentar paralisar o meu governo, me impedir de governar ou me tirar o mandato de forma golpista.

E, novamente, em 22 de março, Dilma declarou, em alto e bom som:

Eu denuncio aqui, por conta disso, a estratégia do “quanto pior melhor”, que parte das oposições assumiu desde o início do meu segundo mandato, inconformada com os resultados das urnas. Essa estratégia do “quanto pior melhor” ela vem sendo uma ação sistemática, anti-republicana e antidemocrática que se manifesta e se manifestou em pautas-bomba e na busca de motivos falsos e inconsistentes para tirar o mandato a mim outorgado pelo povo brasileiro. [SIC]

3) COLLOR DISSE QUE NÃO HAVIA COMETIDO CRIME ALGUM. DILMA TAMBÉM.

Em seu pronunciamento, o ex-presidente Collor, dirigindo-se à nação, disse:

Em primeiro lugar, é preciso deixar bem claro que, nem mesmo no relatório da CPI, existe a afirmação de que a operação financeira feita para custear as despesas de minha campanha teria sido ilegal, inexistisse ou que tivesse afrontado qualquer norma regulamentadora, a despeito de eventuais insinuações. Apesar disso, tenta-se, por todos os meios e modos, passar à população versões inverídicas, maledicentes e totalmente inconsistentes, para confundir a opinião pública e pôr em dúvida a conduta de seu presidente.

A mesma postura tem sido adotada pela presidente Dilma Rousseff. Em 22 de março, Dilma afirmou:

Nós estamos em um regime presidencialista, e o impeachment só pode se dar por crime de responsabilidade claramente demonstrado. Na ausência de crime de responsabilidade comprovado, com provas inquestionáveis, o afastamento torna-se, ele próprio, um crime contra a democracia.

E, repito, este é o caso do processo de impeachment em curso contra meu mandato, devido à ausência de base legal. Não cometi nenhum crime previsto na Constituição e nas leis para justificar a interrupção de meu mandato.

4) COLLOR DISSE QUE ERA VÍTIMA DE UMA “CONJURAÇÃO”. DILMA TAMBÉM.

No discurso de 20 de setembro de 1992, Collor acusou que havia uma espécie de conspiração contra si, da qual faziam parte seus adversários, ao declarar:

Resta, então, uma grande pergunta: quais os componentes que se conjugaram para tentar envolver, de forma tão obstinada, o Presidente da República nesses lamentáveis episódios? A resposta é: os interesses contrariados, as ambições frustradas e a percepção, pelos setores do atraso, de que o programa modernizador do meu governo, aprovado nas urnas, vai dar certo. […] É engano imaginar que tenho desmedido apego ao poder. Este sentimento, tem aqueles que demonstram querer atropelar o processo democrático e a consolidação das instituições.

Dilma, não contente em apenas sugerir o mesmo, foi mais além e denunciou um suposto golpe contra si. Na cerimônia de posse de Lula, a presidente disse, com relação às conversas interceptadas legalmente entre ela e Lula:

O Brasil não pode se tornar submisso a uma conjuração que invade as prerrogativas constitucionais da Presidência da República; não porque a presidenta da República seja diferente dos outros cidadãos e cidadãs; mas porque, se se ferem prerrogativas da Presidência da República, o que farão com as prerrogativas dos cidadãos? [SIC]

E, no dia 22 de março, declarou Dilma:

Pode-se descrever um golpe de Estado com muitos nomes, mas ele sempre será o que é: a ruptura da legalidade, atentado à democracia. Não importa se a arma do golpe é um fuzil, uma vingança ou a vontade política de alguns de chegar mais rápido ao poder. […] Negar a realidade não me surpreende, por isso, o nome é um só: é golpe.

Sei que as instituições do Brasil hoje estão muito maduras; sei que temos condições de superar esse momento. Mas sei, também, que há uma ruptura institucional sendo forjada nos baixos porões da baixa política, que precisa ser combatida.

5) COLLOR SE GABAVA DE TER FACILITADO INVESTIGAÇÕES. DILMA TAMBÉM.

O ex-presidente Collor afirmou, em seu último discurso em cadeia nacional, o seguinte:

Sempre trabalhei pela verdade e pela transparência. Tanto que as investigações feitas só foram possíveis porque, logo no início de meu governo, tomei uma série de medidas, todas profundamente moralizadoras. […] Sem essas medidas, e de inúmeras outras por mim adotadas para combater as fraudes, evitar desvios e coibir a sonegação, não teríamos, como hoje temos, formas seguras de apurar responsabilidades e punir culpados.

A presidente Dilma usou do mesmo expediente como uma forma de talvez demonstrar superioridade moral e uma suposta impossibilidade de que tenha cometido qualquer crime de responsabilidade. Em 3 março, durante posse de ministros, Dilma sentenciou:

Quero, mais uma vez, enfatizar que o combate à corrupção continua sendo uma prioridade do meu governo. Nenhum governo realizou um enfrentamento tão duro e eficiente à corrupção como o meu. E continuará sendo assim. Afinal, não estamos investigando a corrupção porque ela começou agora em meu governo. A corrupção está sendo investigada livremente e sem pressões, porque nós não impusemos barreiras nem engavetamos as investigações. Pelo contrário, foi o meu governo que encaminhou ao Congresso Nacional para aprovação as principais legislações que facilitaram e facilitam hoje as investigações e que punem exemplarmente os corruptores.

E em 18 de março, durante entrega de unidades habitacionais, disparou:

Hoje nós temos sólidas instituições, tanto no Judiciário como na polícia. Essas instituições, elas são apolíticas. E elas são apolíticas porque a Justiça não pode ser politizada, nem tampouco pode ser politizada a polícia. O meu governo garantiu autonomia para a Polícia Federal investigar a quem fosse necessário. O meu governo respeita o Ministério Público e respeita o Judiciário. [SIC]

6) COLLOR TENTOU USAR A LEGITIMIDADE DO VOTO COMO BLINDAGEM. DILMA TAMBÉM.

Numa jogada em que tentou demonstrar – aparentemente, sem sucesso – que o processo de impeachment era um golpe contra a legitimidade conquistada pelo voto, Collor disse:

Apesar dos exaustivos esclarecimentos prestados pelos meus aliados em todas as fases da CPI, demonstrando não haver qualquer participação, conivência, tolerância ou responsabilidade de minha parte, e, apesar da conhecida determinação com que me dispus, e me disponho, a enfrentar quaisquer acusações, anuncia-se agora que deve ser proposto pelos meus adversários o impedimento do Presidente da República. […] E qual o objetivo real dos meus adversários? Eles tentam, senhoras e senhores, eles tentam, em dez dias, cassar o mandato do Presidente da República, legitimado pelo voto popular.

Dilma, bem mais ousada do que Collor, é taxativa em chamar as iniciativas de afastá-la do poder, mesmo que plenamente amparadas pela Constituição Federal, de golpe, identificando-se a si própria com o regime democrático que permitiu sua eleição. No discurso de 22 de março, Dilma afirmou:

Essa conjuração que ameaça a normalidade constitucional e a estabilidade democrática no Brasil tem vários segmentos: uma das ameaças vem do processo de impeachment em curso no Congresso Nacional contra o mandato que me foi conferido pela população brasileira. […]

Neste caso, não cabem meias palavras: o que está em curso é um golpe contra a democracia.

7) COLLOR DISSE QUE NÃO SERIA AFASTADO DA PRESIDÊNCIA. DILMA TAMBÉM.

O ex-presidente Collor, em seu último discurso aberto, afirmou peremptoriamente:

Enganam-se aqueles que pensam que vão cassar o mandato do Presidente da República! Confio nos meus aliados, porque conheço a formação moral e pública daqueles que estão ao meu lado. Sei que não se deixarão intimidar pelas manifestações organizadas, pelos que, pensando em servir, desservem o país.

Os homens de bom senso que analisarem os fatos com isenção de paixões, e os verdadeiros patriotas, estes sim estarão ao meu lado. Ganharemos! Ganharemos no voto!

Dilma Rousseff traçou caminho semelhante em seus últimos pronunciamentos. Em 17 de março, disse:

Há um Brasil que luta contra a corrupção; há um Brasil que respeita os direitos individuais; há um Brasil das instituições democráticas. Esse Brasil que luta contra a corrupção, respeita as instituições democráticas e os direitos individuais, está comprometido com o crescimento e com a inclusão de todos os cidadãos. E esse Brasil conta com o meu trabalho e a minha determinação.

E, no ato de 22 de março, declarou:

Sei que as instituições do Brasil hoje estão muito maduras; sei que temos condições de superar esse momento. Mas sei, também, que há uma ruptura institucional sendo forjada nos baixos porões da baixa política, que precisa ser combatida.

Por isso, agradeço a vocês juristas, advogados, professores de direito, a todos que militam nessa área, a todos que trabalham pela Justiça, além dos cidadãos deste País, por defender a normalidade democrática e a Constituição.

Juntos, tenho certeza, que iremos defender as instituições das ameaças que estão sofrendo. Juntos vamos fazer esse Brasil, tão querido, avançar.

Diante de tantas semelhanças, é necessário apontar uma diferença essencial: o ex-presidente Collor jamais promoveu um comício privado, altamente ideológico, no Palácio do Planalto para posar de vítima e acusar que havia um suposto golpe em curso.

Foi exatamente isso o que a presidente Dilma fez em 22 de março. O evento realizado na sede do Poder Executivo, chamado de “encontro com juristas pela Legalidade e em Defesa da Democracia”, foi um autoritário show de horrores, um momento vergonhoso da história brasileira. O cinismo foi tamanho que se ousou chamar de ato “em defesa da democracia” um evento que se dedicou a atacar, nos termos mais absurdos, a atuação de instituições essenciais na manutenção do Estado de direito e da democracia no Brasil –Justiça Federal, Ministério Público Federal, Supremo Tribunal Federal, Polícia Federal e Poder Legislativo.

As acusações que pesaram sobre Collor são muito, muito menos graves do que as que pesam hoje sobre Dilma Rousseff. Como vimos, ambos utilizaram, até agora, estratégias semelhantes de defesa pública. Só nos resta esperar e pressionar para que o destino dos dois na Presidência da República seja o mesmo.

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